Bem Vindo

- Com esta série não é pretendido fazer história, mas sim é visado, ao lado das imagens, que poderão ser úteis aos leitores, a sintetizar em seus acontecimentos principais a vida da Cidade de Porto Alegre inserida na História.

Não se despreza documentos oficiais ou fontes fidedignas para garantir a credibilidade; o que hoje é uma verdade amanhã pode ser contestado. A busca por fatos, dados, informações, a pesquisa, reconhecer a qualidade no esforço e trabalho de terceiros, transformam o resultado em um caminho instigante e incansável na busca pela História.

Dividir estas informações e aceitar as críticas é uma dádiva para o pesquisador.

- Este Blog esta sempre em crescimento entre o Jornalismo, Causos e a História.

Haverá provavelmente falhas e omissões, naturais num trabalho tão restrito.

- Qualquer texto, informação, imagem colocada indevidamente (sem o devido crédito), dúvida ou inconsistência na informação, por favor, comunique, e, aproveito para pedir desculpas pela omissão ou inconvenientes.

(Consulte a relação bibliográfica e iconográfica)

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- Em História, não podemos gerar Dogmas que gerem Heresias e Blasfêmias e nos façam Intransigentes.

- Acompanhe neste relato, que se diz singelo; a História e as Transformações de Porto Alegre.

Poderá demorar um pouquinho para baixar, mas vale à pena. - Bom Passeio.

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terça-feira, 31 de julho de 2012



Barão do Gravataí e
Baronesa do Gravataí

- Um casal que brilhou nos salões da sociedade porto-alegrense na segunda metade do século XIX.
Eles receberam os títulos das mãos do próprio imperador D. Pedro II. E cada um fez por merecer o presente do Imperador.
Nota:
Os títulos de nobreza não passavam de pai para filho, nem se estendiam de marido para mulher. Eram títulos individuais, conquistados por méritos pessoais dos homenageados, ou por especial simpatia do soberano.

João Batista da Silva Pereira recebeu o título de “Barão do Gravataí” por um motivo especial, que daqui a pouco você vai ficar sabendo.
O mesmo aconteceu com a sua esposa, Maria Emília Pereira, que um dia se tornou “Baronesa do Gravataí”, por seus próprios méritos, e não por ser esposa de um barão.

João Batista da Silva Pereira (Braga, 15 de janeiro de 1797 — Porto Alegre, 09 de agosto de 1853), foi um industrial brasileiro.

Barão do Gravataí

Por volta de 1823, chegou a Porto Alegre o português João Batista da Silva Pereira, natural da cidade de Braga (Portugal), alto, claro, de cabelos pretos, bem disposto, homem dotado de extraordinária energia e grande tino comercial.

Chegou pobre, e logo começou a trabalhar. Naquele tempo, a margem do Guaíba se estendia ao longo do Caminho do Belas (atual Avenida Praia de Belas).
Foi ali, na altura onde hoje se encontra o Colégio Pão dos Pobres, que montou um modesto estaleiro.

De início, fazia pequenos barcos para navegação fluvial. Mais tarde, chegou a construir grandes embarcações, que atravessavam o Atlântico levando os produtos rio-grandenses e trazendo especiarias das Índias.

Em abril de 1823, João Batista da Silva Pereira casou com dona Maria Emília de Menezes, moça de tradicional família açoriana radicada em Rio Pardo.

Em 1826, construiu o palacete que viria a ser conhecido mais tarde como o solar da Baronesa do Gravataí.

Ao fundo o grande Solar da Baronesa
Areal da Baronesa - 1860

Com o passar do tempo, João Batista da Silva Pereira foi comprando grandes lotes de terra nos arredores de sua mansão, até formar uma enorme chácara, com as dimensões de um verdadeiro bairro. Esta foi a origem do Arraial da Baronesa (ou areal).

Apesar da riqueza e da posição social conquistadas, João Batista da Silva Pereira nunca se mostrou um homem egoísta.

Durante a Revolução Farroupilha, deu uma prova de sua generosidade quando o Barão de Caxias era presidente da Província, emprestou uma grande soma de dinheiro ao governo, sem cobrar juros.
E dispensou os agradecimentos, pois considerava aquilo uma retribuição à sua pátria adotiva.

Tão extensa se tornou a propriedade, que nem mesmo o dono tinha pleno domínio sobre suas terras. Grande parte era coberta por pomares e hortas cultivadas.
Mas havia um trecho que se mantinha em estado natural. Ficava mais ou menos onde hoje se situa a Rua João Alfredo.

Naquele tempo, o Arroio Dilúvio ainda não corria em linha reta em direção ao Guaíba. Na altura da Ponte de Pedra, ele fazia uma curva e ia desembocar para os lados da Volta do Gasômetro, passando por toda a extensão da Rua da Margem (por acompanhar o curso natural da margem do arroio), que viria ser mais tarde a Rua João Alfredo.
Esse ponto de vasta propriedade de João Batista da Silva Pereira era dominado por um denso matagal. Havia ali uma grande variedade de árvores nativas: - pitangueiras, goiabeiras, laranjeiras, bananeiras e outras que davam frutos comestíveis o ano todo. Além disso, naquelas terras podia-se também pescar e caçar pequenos animais. Enfim, era um recanto com frutas, caça, pesca e água potável. Tinha de tudo para garantir a alimentação de quem ali resolvesse morar.

Foi nesse verdadeiro refúgio natural que os escravos fugidos acabaram encontrando um lugar ideal para se esconder. Ali eles podiam sobreviver, longe do alcance dos capitães-de-mato (caçadores do escravos).
Mas além das frutas, caça, pesca e água potável, os escravos ali escondidos precisavam de roupas e de outros bens. Começaram a assaltar as pessoas que por ali passavam. Conhecendo cada palmo do terreno, eles costumavam atacar de surpresa e logo sumiam no meio dos matagais.
O lugar passou a ser conhecido como “Emboscadas”.
Os escravos fugidos armavam tocaias, esperando as vítimas às escondidas.

Na parte mais nobre das terras de João Batista da Silva Pereira, a vida continuava no esplendor dos salões festivos, das reuniões políticas e dos encontros de negócios.

Em 1845, no final, quando aqui estiveram o Imperador D. Pedro II e a Imperatriz Dona Theresa Cristina, na primeira visita oficial a cidade, foram regiamente recebidos por João Batista e dona Maria Emília.
Por insistência do casal, os soberanos hospedaram-se no Solar da Baronesa. E foram tratados com tanta fidalguia, que o imperador resolveu agraciar o dono da casa com um título de nobreza.


João Batista da Silva Pereira era comendador da Imperial Ordem de Cristo e da Ordem da Rosa.

Em 29 de dezembro de 1852, João Batista da Silva Pereira foi agraciado com o título definitivo de “Barão de Gravataí”.
Assim João Batista da Silva Pereira recebeu o título de “Barão do Gravataí”.

Em 1852, João Batista da Silva Pereira foi comandante superior da Guarda Nacional de Porto Alegre. Prestou relevantes serviços na organização dos corpos auxiliares do exército por ocasião da guerra com a República Oriental do Uruguai.

Em 29 de dezembro de 1852, João Batista da Silva Pereira foi agraciado com o título definitivo de “Barão de Gravataí”.
Assim João Batista da Silva Pereira recebeu o título de “Barão do Gravataí”.

Em 1853, para espanto e surpresa geral, João Batista da Silva Pereira, 56 anos, morreu de repente, fulminado por uma inexplicável hemorragia. Era um homem ainda cheio de vigor. Sempre gozara de ótima saúde.
Foi, de fato, uma morte que pegou todos de surpresa. Até mesmo o Imperador.
Por ser um homem de profunda formação humanista, que sabia cultivar a gratidão, D. Pedro II sentiu-se no dever de levar um gesto de conforto a viúva Maria Emília de Menezes Pereira. E concedeu-lhe então o título de “Baronesa do Gravataí”.

Maria Emília de Menezes Pereira, viúva, com 44 anos, e sem experiência nos negócio, aos poucos foi perdendo o controle sobre o enorme patrimônio acumulado pelo marido. Tão grande era a riqueza por ele deixada, que ela nem sequer fazia idéia do quanto tinha.

Com o passar dos anos, o dinheiro foi ficando cada vez mais escasso. Os negócios estavam paralisados desde a morte do marido. E assim se passaram muitos anos, com despesas e mais despesas, e sem entrada de novos recursos.
Apesar de continuar proprietária de uma enorme extensão de terras, Dona Maria Emília já começava a sentir as amarguras de uma velhice marcada pelas privações. Cheia de dívidas, e sem ter mais a quem recorrer, ela passava os dias relembrando os tempos de esplendor, quando os salões do Solar da Baronesa serviram de palco para grandes encontros sociais, políticos e de negócios.

Pouco tempo depois, Dona Maria Emília sofreu ainda mais um duro golpe, um incêndio repentino tomou conta do solar. Enormes labaredas clarearam a noite do Arraial da Baronesa. E quando o sol tornou a surgir com o novo dia, só encontrou ali os restos calcinados dos velhos tempos de esplendor.

Solar da Baronesa
Cidade Baixa

Em 1879, Dona Maria Emília Pereira, “Baronesa do Gravataí”, aos 71 anos enviou à Câmara de Vereadores de Porto Alegre um pedido de licença para transformar sua imensa propriedade num loteamento. Junto ao pedido mandou um mapa detalhado, assinalando a divisão dos terrenos.

Foi a melhor forma que ela encontrou para vender seu valioso patrimônio e garantir um fim de vida mais tranqüilo.

Atendendo a solicitação da Baronesa, a Câmara de Vereadores atendeu a licença.
Um novo bairro ia nascendo com a demarcação dos lotes.
A parte da cidade baixa começou a ficar conhecida como Arraial da Baronesa (atual bairro Cidade Baixa).
Os dois nomes, muito semelhantes, quase iguais se perpetuaram na memória da cidade: Arraial da Baronesa e Areal da Baronesa.

Em 17 de marco de 1888, em Porto Alegre, morre dona Maria Emília Pereira, “Baronesa do Gravataí”, aos 80 anos, depois que suas terras foram transformadas num bairro, levando na memória os dias de esplendor e decadência do Solar da Baronesa.

Esse casal de nobres, depois de uma feliz vida em comum, continua até hoje unido na geografia de Porto Alegre. As ruas com seus nomes se cruzam numa esquina da Cidade Baixa: - Barão do Gravataí e Baronesa do Gravataí.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

RUA DO ARVOREDO

Introdução
Estudar este fato relevante, íntimo a Porto Alegre, Capital da Província do Rio Grande do Sul, no Império do Brazil que em decorrência, dos acontecimentos, desenrolaram uma série de fatos na vida dos habitantes daquela época.

O AUTOR
Décio Bergamaschi Freitas nasceu em Encantado, RS, em 1922, e faleceu em Porto Alegre, RS, em 2004. Ele é formado em direito pela Universidade do Rio Grande do Sul – ainda na faculdade, Décio Freitas filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro e começou a exercer, também, o jornalismo. Ele atuou como repórter para os jornais gaúchos Correio do Povo, Diário de Notícias e Tribuna Gaúcha.

Após o Golpe de 1964, ele fugiu para São Paulo, para o Rio de Janeiro e para Montevidéu, capital do Uruguai. Aliás, foi em Montevidéu que Freitas publicou seu primeiro livro, Palmares – la Guerrilla Negra, em 1971.

No mesmo ano, o livro foi publicado no Brasil, sob o título Palmares – A Guerra dos Escravos.
Décio Freitas alcançou notoriedade, ao longo dos anos, como “Historiador dos Vencidos” – foi, inclusive, um dos primeiros a lançar luz sobre os movimentos de resistência dos negros à escravidão no Brasil Colônia, e a dar visibilidade ao então desconhecido movimento do Quilombo de Palmares e de seu líder mais importante, Zumbi, numa época em que ainda se considerava como grande feito do movimento negro o gesto “altruísta” de uma branca: a Princesa Isabel, signatária da Lei Áurea de 1888.

Seus livros seguintes foram:
Insurreições Escravas (1975); Escravos e Senhores-de-Escravos (1977); Cabanos – Os Guerrilheiros do Imperador (1978); O Escravismo Brasileiro (1980); O Capitalismo Pastoril (1980); Escravidão de Índios e Negros no Brasil (1980); O Socialismo Missioneiro (1982); A Revolução dos Malês (1985); Brasil Inconcluso (1986); A Comédia Brasileira (1994); O Maior Crime da Terra (1996); O Homem que Inventou a Ditadura no Brasil (1999); República de Palmares (2004); e A Miserável Revolução das Classes Infames (2005 – póstumo).

Atualmente, a confiabilidade de Décio Freitas, pode estar sob suspeita – há historiadores que acusam Décio Freitas de ter criado dados de seus livros. Teria sido Décio Freitas quem levantou dados sobre a suposta infância de Zumbi dos Palmares. Quem afirma sobre a polêmica acerca de Décio Freitas foi o jornalista Leandro Narloch, em seu livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, publicado em 2011:
A imaginação sobre Zumbi foi mais criativa na obra do jornalista gaúcho Décio Freitas, amigo de Leonel Brizola e do ex-presidente João Goulart. No livro Palmares: A Guerra dos Escravos, Décio Freitas afirma ter encontrado cartas mostrando que o herói cresceu num convento de Alagoas, onde recebeu o nome de Francisco e aprendeu a falar em latim e português. Aos 15 anos, atendendo ao chamado do seu povo, teria partido para o quilombo. As cartas sobre a infância de Zumbi teriam sido enviadas pelo padre Antônio Melo, da vila alagoana de Porto Calvo, para um padre de Portugal, onde Décio Freitas as teria encontrado. Ele nunca mostrou as mensagens para os historiadores que insistiram em ver o material.

A mesma suspeita recai sobre outro livro seu, O Maior Crime da Terra. O historiador Claudio Pereira Elmir procurou por cinco anos algum vestígio dos registros policiais que Décio Freitas cita. Não encontrou nenhum. ‘Tenho razões para acreditar que ele inventou as fontes e que pode ter feito o mesmo em outras obras’, disse-me Claudio no fim de 2008.

EXERCÍCIO DA HISTÓRIA
Décio Freitas, O MAIOR CRIME DA TERRA, um dos referidos livros que estão sob suspeita.
O MAIOR CRIME DA TERRA – O AÇOUGUE HUMANO DA RUA DO ARVOREDO – PORTO ALEGRE, 1863 – 1864 foi publicado em 1996, pela editora Sulina, e lança luz sobre um episódio obscuro e praticamente lendário da história da cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.
Escrito em tom de romance policial, Décio Freitas reconta, em O MAIOR CRIME DA TERRA, a história tenebrosa de José Ramos, o linguiceiro.

Entre 1863 e 1864, ele teria assassinado várias pessoas, com a ajuda de seus cúmplices, a esposa Catarina Palse e o também açougueiro Carlos Claussner, e transformado os corpos das vítimas em linguiça – a qual era muito apreciada pela população da então Villa de Porto Alegre.
Freitas conta, no primeiro capítulo do livro, que a ideia da pesquisa nasceu em 1948, quando, a pedido do jornal Diário de Notícias, ele escreveu uma série folhetins sobre os crimes célebres de Porto Alegre, que fez muito sucesso e permitiu ao jornal superar, em vendas, o então concorrente Correio do Povo.

O primeiro capítulo dessa série versa sobre o “caso da linguiça humana”. Na fase de pesquisa, o jovem Décio Freitas, recém-formado em advocacia, percebeu que o assunto era um tabu para a população porto-alegrense: praticamente ninguém da cidade conseguia conceber a ideia de ter se transformado, involuntariamente, em canibal.

As provas, segundo Décio Freitas: primeiro, porque, por pressão de autoridades locais, o folhetim sobre o caso da “linguiça humana” no Diário de Notícias sofreu limitações e não foi conclusivo sobre o caso; segundo, porque os processos judiciais levantados contra José Ramos, em um total de três, sumiram dos Arquivos Públicos. Décio Freitas teria, felizmente, fotocopiado dois deles – o segundo e o terceiro processos. O primeiro sumiu; os outros dois também.

Décio Freitas só voltou ao assunto nos anos 1980.

Em 1986, o escritor Luiz Antônio Assis Brasil incluiu o episódio em seu romance, Cães da Província, e Décio Freitas forneceu subsídios ao autor.
Depois, foi a vez de Roger Kintelsen, historiador norte-americano, consultar Décio Freitas acerca do episódio, para incluí-lo em seu trabalho sobre cultura popular gaúcha.

Em 1993, o Arquivo Histórico publicou a transcrição do segundo processo contra José Ramos, o único que mantinha na íntegra (segundo Décio Freitas afirma).

Em 1996, Freitas publicou O MAIOR CRIME DA TERRA. Mas hoje reside a suspeita de que Décio Freitas, na realidade, criou as fontes, visto que a referida busca pelos processos contra José Ramos não deu em nada... Isso quem disse foi Leandro Narloch.

Ainda assim, Décio Freitas também foi consultado pelo cronista esportivo e escritor David Coimbra, um dos mais populares cronistas do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Coimbra escreveu seu primeiro romance longo, Canibais (2004), baseado no episódio.

GRANDE TABU PORTO-ALEGRENSE
Em O MAIOR CRIME DA TERRA, Décio Freitas inclui também considerações filosóficas sobre a natureza humana – afinal, o que teria levado José Ramos, um ex-policial, culto e algo sensível, apreciador de poesia e das óperas apresentadas no Theatro São Pedro, a matar cinco (e talvez mais) pessoas inocentes, com golpes de machado na cabeça e talhos no pescoço, e depois as esquartejado e transformado seus corpos em linguiça? Décio Freitas, evidentemente, precisou analisar os fatos à luz das teorias psicológicas, tratando dos crimes não como casos policiais em si, mas fruto de um desvio da natureza humana, de um retorno do então homem civilizado ao instinto animal que contraria preceitos bíblicos. E, mais que isso: induzindo outros homens a ferir leis divinas inconscientemente – já que a linguiça humana era muito apreciada e vendia bem.

O episódio não ficou limitado a Porto Alegre, no que diz respeito à divulgação: ele foi noticiado por um jornal francês (o título do livro faz referência ao da referida notícia, do jornal Le Temps) e foi comentado até por Charles Darwin, o pai do evolucionismo.

O LOCAL
O fato inicial é que os crimes da Rua do Arvoredo – atualmente conhecida como Rua Fernando Machado, localizada na Cidade Baixa de Porto Alegre – assombrou a então villa, então com 20 mil habitantes, naqueles anos de 1863 e 1864. A cidade, que aos poucos se urbanizava, mas que não possuía um sistema de saneamento eficiente, então convivia com a insegurança, principalmente porque estava para começar a Guerra do Paraguai (1865 – 1870); e os descendentes de portugueses viviam um conflito com os imigrantes alemães que se estabeleceram nos arredores – São Leopoldo e outras localidades do Vale dos Sinos. Conflito agravado por conta da Questão Christie, conflito diplomático entre o Império do Brasil e Inglaterra ocorrido em 1861 – um jornal publicado na Colônia Alemã se posicionou a favor da Inglaterra, o que despertou o ódio dos brasileiros contra os alemães.

José Ramos, nascido em Santa Catarina, era filho de um ex-combatente da Revolução Farroupilha (1835 – 1845), até que, um dia, ao defender a mãe das agressões do pai, o rapaz fere aquele mortalmente, e é obrigado a fugir para a então Província de São Pedro, onde atua como policial até o dia em que tenta degolar um prisioneiro célebre – Campara, o “Robin Hood dos Pampas” – de dentro da cela. Ele então passa a atuar, além da fachada da atividade de açougueiro, como informante do delegado Dario Callado, nordestino conhecido tanto pelo extremo autoritarismo como pelos casos que teve com atrizes que se apresentavam no Theatro São Pedro.

Catarina Palsen, esposa de José Ramos, nascera na Transilvânia, atual Romênia, então parte do Império Alemão, e, para todos os efeitos, ela era de nacionalidade alemã; sofrera agressões ainda antes de migrar ao Brasil, e ainda viu seu primeiro marido se suicidar durante a viagem para a América. E teria sido cúmplice de Jose Ramos: segundo a versão popular, Catarina Palsen, possuidora de certa beleza, atraía as vítimas para a casa onde vivia com Jose Ramos – o número 27 da Rua do Arvoredo, casa tida como amaldiçoada – para uma inocente conversa ou sob sedução, e o homem primeiro fendia a cabeça da vítima com uma machadada; depois, degolava, como era costume desde a época da Revolução Farroupilha. Jose Ramos, depois, esvaziava os bolsos das vítimas e se apossava de seus bens.

Já a ideia de transformar as vítimas em linguiça teria partido do então cúmplice Carlos Claussner, também alemão, e açougueiro. Segundo um posterior depoimento dado por Catarina Palsen à polícia, Jose Ramos matava as vítimas atraídas por Catarina Palsen, e Carlos Claussner se encarregava de transformar as vítimas em linguiça. Os restos mortais eram dissolvidos em ácido ou jogados no Rio Guaíba. Até aqui, Jose Ramos teria feito cinco vítimas, talvez mais (descontando o próprio pai e algumas mortes cometidas ainda no exercício da atividade policial). Como um cúmplice involuntário, ainda havia Henrique, o corcunda, também alemão, que teve participação em algumas das mortes, ajudando a carregar os restos mortais para fora da casa no. 27.
O começo da ruína de Jose Ramos, então um cidadão acima de qualquer suspeita, começou quando resolveu matar o cúmplice, Carlos Claussner, em setembro de 1863, após um desentendimento em que o açougueiro ameaçou entregar o linguiceiro à polícia. Mas Jose Ramos só foi preso depois de ter feito três outras vítimas, mas as quais resolveu apenas desovar os corpos em um poço no quintal da casa: o comerciante português Januário, o caixeiro deste, então menino, e um cachorro, pertencente ao menino, que teve de ser morto porque latia em frente à casa onde o dono desaparecera. Os três foram mortos em 15 de abril de 1864, mais de sete meses depois da morte de Carlos Claussner.

O primeiro dos três processos contra Jose Ramos, instaurados a partir de sua prisão em abril de 1864, referia-se à morte de Januário e seu caixeiro;
O segundo processo era referente à morte de Carlos Claussner;  
O terceiro, aos crimes da “linguiça humana”. Estes só vieram à tona em agosto de 1868, quando, após muita insistência de Catarina Palsen, que também fora presa, em falar com o delegado, e após ter apresentado um caderno com sua confissão a Dario Callado, a mulher de Jose Ramos depõe na polícia e revela os crimes do marido, que vai a novo julgamento. Negando tudo, claro, mas desmascarado por novas testemunhas.

Catarina Palsen é libertada em 1877 após cumprir pena, desaparece de Porto Alegre até 1883 – há notícias que ela tenha se juntado à seita dos muckers, liderada por Jacobina Maurer, em São Leopoldo (aliás, no depoimento a Dario Callado, Catarina Palsen se declarou mucker) – e morreu em 1891. Já Jose Ramos conseguiu, não se sabe como, ter sua pena de morte suspensa e substituída por prisão perpétua, e vive como um prisioneiro privilegiado, até morrer, em 1893, leproso, na Santa Casa de Porto Alegre.
Por pouco, o episódio não põe mais lenha no conflito entre brasileiros e alemães em Porto Alegre, ainda mais que envolvia alemães, vistos como gente pouco confiável.
E, por muitos anos, não se comeu mais linguiça em Porto Alegre. Começaria, desse modo, o tabu que supostamente atrapalhou o trabalho de Décio Freitas.
A partir desse episódio, Décio Freitas também promove um exercício de micro-história, fazendo também a reconstituição de aspectos da Porto Alegre do século XIX.
Ele começa a narrar a história a partir dos últimos assassinatos, criando, dessa forma, algum suspense para os leitores. Alguns trechos foram puro recurso de ficção, como o que Jose Ramos conta a Catarina Palsen um sonho que teve, em que seria enforcado. Décio Freitas até contesta a suposta beleza de Catarina Palsen.
Sendo pouco confiável ou não, O MAIOR CRIME DA TERRA é a melhor fonte que temos sobre o crime que chocou Porto Alegre – e, depois do romance de David Coimbra, eles já aceitam o fato melhor que antes.

Outros Casos
Novo Caso de Carne Humana
Porto Alegre
O sr. Pery Fagundes, estabelecido com armazem de seccos e molhados a rua Gomes Carneiro, nº 6, no arraial da Gloria, procurou, hontem, á noite, a policia judiciaria, a quem declarou desconfiar ter comido uma linguiça feita de carne humana. Ao coronel Carlos Pacheco, delegado de plantão, o sr. Fagundes disse que, ante-hontem, á tarde comprara 4 kilos de linguiça de um seu antigo freguez de nome João, e de nacionalidade italiana.parte dos seus freguezes. Pela manhã de hontem, Fagundes serviu-se de uma linguiça que mandou preparar em sua residencia. Sua vizinha, d. Anna Salgado, que tambem lhe comprára um quarto de kilo de linguiça, preparou-a e deu a comer a uma sua filha menor. 
Á tarde, o sr. Fagundes e a filha de d. Anna começaram a sentir colicas.
Como corresse pela cidade, o boato da descoberta de linguiças preparadas com carne humana, o sr. Fagundes procurou logo o dr. Ulysses Nonohay, que mora em Theresopolis, á quem mostrou um pedaço de linguiça de que se servira, tendo parecido áquelle medico tratar-se decarne humana, O sr. Fagundes a vista disso, entregou ao delegado coronel Carlos Pacheco os dois kilos restantes de linguiça que havia no armazém. O sr. Fagundes vendera diversas quantidades do tal artigo a vários freguezes.

Segundo ouvimos, a policia judiciaria mandará examinar, hoje, a linguiça que se acha em seu poder. A policia está interessada em apurar a verdade.

Nota:
Porto Alegre já havia convivido com um fato semelhante em meados do século 18. Em 1864, uma série de homicídios — os crimes da rua do Arvoredo (atual Fernando Machado) — apavoraram a população da cidade, pelo seu elevado grau de morbidez.

A acusação dos crimes recaía sobre o cidadão José Ramos, que tinha entre os seus hábitos assistir aos espetáculos de música erudita levados no Theatro São Pedro.
Jose Ramos, catarinense e ex-policial, segundo outras versões, era truculento e, segundo se dizia na época, usava sua parceira Catarina Palsen, de origem húngara, para atrair as vítimas para a rua do Arvoredo. Ali, os pretendentes aos favores de Catarina Palsen eram literalmente abatidos, esquartejados e viravam recheio de linguiça.

Segundo o historiador Décio Freitas (1922-2004), que escreveu sobre o assunto o livro “O Maior Crime da Terra — o Açougue Humano da Rua do Arvoredo” (1998), os assassinatos são confirmados.

A veracidade sobre as linguiças de carne humana, entretanto, carece de provas documentais. Correio do Povo, 28/5/1915 A grafia da época está preservada nos textos acima.
Jornal Correio do Povo, Porto Alegre. 29 de maio de 1915.

O Caso Papai Denke
O episódio de comercialização de carne humana e de canibalismo involuntário ocorrido em Porto Alegre provavelmente não foi o primeiro da História, dentre tantos outros casos de canibalismo registrados na História, mas se sabe que não foi o único: um caso similar ocorreu na Alemanha, entre 1909 e 1924 – o alemão Karl Denke, da cidade de Munsterberg, comercializava salsichas feitas com a carne dos hóspedes de sua hospedaria. Tal como Jose Ramos, Karl Denke era um cidadão acima de qualquer suspeita, querido na cidade, principalmente pelas crianças, que o apelidaram de “papai Denke”. Estima-se que tenha feito 41 ou mais vítimas, todas de fora da cidade de Munsterberg, que também eram “aproveitadas” para fazer acessórios de couro, como sapatos e cintos! Ele se matou na cadeia no dia em que foi preso. (Fonte: Revista Mundo Estranho, edição 148, janeiro de 2014).


"José Ramos, o primeiro serial killer brasileiro"

Um evento macabro presente na memória coletiva dos porto-alegrenses
“Os crimes da Rua do Arvoredo”.

As primeiras vítimas — “sempre gente de fora” — eram fisgadas por Catarina Palse no Beco da Ópera (atual Rua Uruguai).
Atraídos pelos dotes físicos da mulher, eles iam para o cadafalso por um trajeto obscuro de ladeiras, do velho Beco do Poço pela Rua da Igreja (atual Rua Duque de Caxias), até a casa dele — um sobrado que ficava atrás da antiga Matriz, na Rua do Arvoredo (atual Fernando Machado).

Nota:
Neste sobrado ocorreu o primeiro latrocínio, segundo registros da época.
A casa ficava de frente ao cemitério da cidade nos fundos da Igreja Matriz (atual Catedral). Como a chuva amiúde lavava o terreno, não era raro encontrar fêmures e caveiras rolando pela Rua do Arvoredo. Como ninguém queria alugar aquela casa, José Ramos e Catarina Palse se mudaram para lá.

Com técnica refinada, cada corpo era degolado, esquartejado, descarnado e cortado com capricho e em fatia, para serem acondicionados em baús.
Para o trabalho, o açougueiro contava com a ajuda de Carl Claussner (que pouco tempo depois seria transformado em vítima pelo comparsa).
Com o moedor, ele fazia guisado da carne e preparava o produto (lingüiça), oferecido para toda a cidade em seu açougue da Rua da Ponte (atual Rua Riachuelo), e tinha por sinal, muito boa “aceitação”.

- Nesse ponto “inicia-se a lenda”, pois o processo criminal a que José Ramos respondeu, existe, mas nele não consta que as vítimas eram transformadas em lingüiça.

- A história oficial em vão buscou abafar o caso, mas a verdade é que a cidade entrou para a galeria dos crimes mais hediondos por causa de um homem insuspeito — um bon vivant — na verdade um verdadeiro chacal escondido com peles de um dândi, e talvez o maior facínora de seu tempo.

Principais Personagens
- Dentre os diversos personagens dessa história, alguns se destacam sobremaneira aos demais, no desenrolar dos fatos sucedidos.

Entre eles:

José Ramos: O Açougueiro da Rua do Arvoredo,
Catharina Palsen: Companheira de José Ramos,
Dário Callado: Chefe de Polícia,
Carl Gottlieb Klaussner: Açougueiro da Rua da Ponte com quem José Ramos aprendeu o ofício.

Uma das explicações e motivações para os crimes de José Ramos e de Catarina Palse pode ser extraída da história de vida particular de cada um deles.
Ambos têm em comum, acontecimentos trágicos em suas vidas. 

Carl Gottlieb Klaussner - O Mentor

Em 1828, Carl Gottlieb Claussner nasceu em Markersdorf, Saxônia, filho de João Gottlieb Frederico Claussner.
Antes de emigrar para o Brasil, Carl Claussner exerce profissão de tecedor de meias.

Em 1859, Carl Claussner emigra para o Brasil, sob o conceito de “proprietário”, o que lhe conferia a distinção dos camponeses e artesãos, já que alguém nessa condição significava viver de rendimentos.
Em maio de 1861, embarca para o Brasil.

em Porto Alegre, assim que chega à cidade se estabelece com um açougue na Rua da Ponte – atual Rua Riachuelo – perto dos fundos da Igreja das Dores (OS CRIMES DA RUA DO ARVOREDO, 1993).

Isto, segundo a história, remete a verificar que trouxe consigo alguma riqueza.
Em face da localização, Carl Claussner prospera subitamente, já que as senhoras ao saírem da missa ordenavam os escravos que fossem ao açougue do alemão para comprar carne.

Carl Gottlieb Claussner, “peça chave na engrenagem criminosa de José Ramos”, pois é do açougueiro alemão que parte a idéia de transformar a carne das vítimas em lingüiça a fim de fazer desaparecer “literalmente” o corpo do delito, contudo, foi uma das ultimas vitimas de José Ramos, isso porque não assegurava-lhe mais o álibi e a certeza da impunidade.

Depois que Carl Gottlieb Claussner ofereceu a José Ramos a garantia da impunidade, sugerindo-lhe fazer lingüiça com a carne dos mortos, providência que faria sumir qualquer tipo de prova dos homicídios, “o chacal saiu à caça de vítimas” (FREITAS, 1996, p. 111), dando início à série de assassinatos. 

Em junho de 1863, Carl Claussner conhece José Ramos e ambos imediatamente se tornam amigos. Desde então, com grande freqüência Claussner é convidado para jantar na casa de José Ramos.

Carl Claussner tornou-se amigo de José Ramos porque vivia solitário e também dominava o idioma alemão que levava os dois a conversar, diariamente, durante longo período no interior do açougue.
Logo, José Ramos torna-se ajudante de Claussner, com quem aprende o ofício.

Nota:
Os açougueiros, à época, provocavam asco em razão de empunharem instrumentos de corte, esquartejando carne e sempre estarem sujos de sangue.

Carl Claussner, além da aparência sinistra, exibia uma cicatriz em seu rosto que lhe emprestava um aspecto perverso.

Consta que Carl Claussner foi o “mentor” da fabricação de lingüiça das vitimas de José Ramos.
Catarina Pulse, depois de um tempo presa e convertida a “seita Mucker” (Sapiranga-RS), decidiu confessar tudo.
Nesse depoimento menciona que José Ramos lhe dissera que Carl Claussner descobrira uma maneira de impedir que os assassinatos fossem descobertos esquartejando os cadáveres e os transformando em lingüiça, eliminando, dessa forma, as possíveis evidências dos crimes.

Dr. Dario Rafael Callado - Chefe de Polícia

O Chefe de Polícia, Dr. Dario Rafael Callado, homem influente da Província de São Pedro, teve papel destacado nos fatos sucedidos na Rua do Arvoredo, já que, José Ramos era um de seus homens de confiança, subvencionado para trabalhar em missões secretas.
José Ramos espreitava algumas pessoas, especialmente, políticos, por determinação do Chefe de Polícia.

O Chefe de Polícia era uma das autoridades mais conhecidas na Província.
Nordestino, pois a corte sempre designava pessoas de outras regiões para esse cargo, era magro, porém muito forte, de pele escura escarmentada pelo sol e olhos de pupilas negras que fulgiam a ardileza e dissimulação.

Dario Callado tinha enorme poder na Província. Era diligente com suas atividades, mas, também conhecido como pessoa de humor instável e escrúpulo obscuro.
Não raro, era alvo de críticas do deputado Silveira Martins que usava a tribuna para denunciar os seus desmandos.
Prisões ilegais, como:

- A de um homem detido por assoviar durante um espetáculo no Theatro São Pedro.

- A prisão de um comerciante que lhe negou cumprimento numa recepção, espancamentos de escravos e de presos, dentre outras atitudes hostis.

- Como uma surra que ele aplicou em um tenente com quem disputou uma cantora de opereta de passagem pela cidade.

- O castigo desproposital em escravos que estavam apenas e simplesmente caminhando por uma calçada do centro quando o chefe de polícia passava.

Consta, porém, que de todas as histórias de Dario Callado, era dado aos prazeres mundanos. Eram comuns os seus galanteios fracassados, sobretudo as atrizes de teatro, que carregavam a reputação de serem libertinas. O Chefe de Polícia cortejava-as esperando conseguir favores sexuais dessas.

Outro episódio marcante foi quando o chefe de Polícia reuniu as evidências dos assassinatos. Os indícios se deram por meio de identificação dos pertences das vitimas, conservado por José Ramos como souvenires.

Dario Callado oscilou entre satisfeito e receoso, porque, se por um lado resolvia o caso dos desaparecimentos, por outro, o tirano cruel e impiedoso era um de seus informantes assalariados.

Gostaria que assunto permanecesse em sigilo, todavia, estava ciente de que seria impossível, pois havia muitas pessoas envolvidas. Além disso, as evidências eram conclusivas e indicavam que os corpos despegados foram transformados em lingüiça.

O Exercício concomitante das funções de Chefe de Polícia e Juiz de Direito que era autorizado em algumas províncias, lhe permitiu que surgissem revelações embaraçosas sobre seus vínculos com José Ramos.
Acuado, imprimiu celeridade jamais vista ao inquérito policial e cumprimento das funções judiciais.

O Doutor Juiz de Direito Dario Rafael Callado pronunciou a sentença e José Ramos como no incurso nas penas do crime de latrocínio, que não importa necessariamente na punição de pena de morte.

- Diz-se ainda que, por negligência ou simplesmente, por descuido, os autos que versam sobre a fabricação de lingüiça de carne humana desapareceram do processo.

Catarina Palse – A Companheira

Catarina Palse, aos 27 anos, companheira de José Ramos, não é menos importante, pois foi sua cúmplice, seja por atrair as vitimas para sua residência ou, simplesmente, pela omissão, acobertando os crimes do marido.

Catarina Palse nasceu na Hungria, mas etnicamente é alemã.
Fazia parte da minoria alemã da Transilvânia pioneira no povoamento do território que viria constituir a Hungria.
Seu pai era um artesão-sapateiro numa aldeia muito pobre; além de Catarina teve outros dois filhos.
Catarina tem sua figura marcada por acontecimentos trágicos.

Em 1848, Kossuth promove a revolução húngara contra o domínio austríaco.
No ano seguinte, a Rússia invade a Hungria, a fim de ajudar a Áustria a sufocar a revolta, de acordo com as estipulações do Tratado de Viena.
Na Transilvânia, os russos não poupam atrocidades.
Ao ocupar a aldeia, massacram os habitantes, matando os pais e os irmãos de Catarina. Ela é estuprada pela soldadesca, que a deixa abandonada inconsciente.
Tem então 12 anos (FREITAS, 1996 p. 36-37). 

Aos 15 anos, casa-se com Peter Palsen, um cardador de lã.
Posteriormente, aconselhados pelos pastores protestantes, emigram para o Brasil, a fim fugir da miséria em que viviam.
No decorrer da viagem o marido se suicida por estrangulamento em sua frente.

Em 1857, aos 20 anos de idade, Catarina Palse chega a Porto Alegre sozinha.

Em 1862, Catarina Palse conhece José Ramos. Diz-se que foram morar à Rua dos Pecados Mortais.

Em 1863, o casal vai então viver na casa alugada por José Ramos na Rua do Arvoredo. Não há qualquer registro sobre sua vida na cidade desde a sua chegada até ir morar com José Ramos.

Nota:
Embora muita se diga que Catarina Palse seria uma mulher de beleza exuberante, não há qualquer indício que confirme aquele dito.
Segundo Jean Pierre Caillois (conforme descreve Décio Freitas em sua Obra), que a contemplou no tribunal, menciona em suas memórias que:
“... é inteiramente desprovida de dotes físicos e mal se pode acreditar que exerce atração. Baixa e obesa só têm de belos, os longos cabelos loiros e os olhos muito azuis”.

Vê-se na atuação da personagem Catarina Palse.
Em Canibais, excentricidades e escândalos pontuam sua vida, frutos de uma conduta promíscua e sem pudores.
A personagem não apresenta o que se entende por boa conduta, agravada por sair à noite de casa em busca de vítimas para José Ramos.

Estamos no ano de 1864.
Nenhuma mulher respeitável se atreveria a uma aventura dessas sem correr o risco de ser confundida com uma prostituta. Também mantinha relações sexuais com todas as vítimas antes de entregá-las ao marido:
“[...] sentia prazer em se entregar à luxúria do gado de José Ramos (COIMBRA, 2008, p. 138).

José Ramos - O Açougueiro

José Ramos é, sem sombra de dúvidas, o principal elemento dessa espantosa história sobre os crimes hediondos que abalaram os distintos provincianos porto-alegrenses do século XIX.

Consta que, José Ramos era o filho mais velho, de Manoel Ramos, um português, nascido na Província de São Pedro, serviu num esquadrão de cavalaria do exército de Bento Gonçalves na Guerra dos Farrapos. Mas desertou e fugiu para Santa Catarina, onde casou com uma índia, Maria da Conceição, e se estabeleceu com venda de secos e molhados na ilha do Desterro. Aí nasce José Ramos, o mais velho dos três filhos homens.

Era hábito de o pai contar façanhas da revolução, ouvidas com admiração por José Ramos.
Nos serões, o pai conta os feitos da guerra, que José Ramos ouve atentamente.
José Ramos pede ao pai que conte, sem número de vezes, as cargas de cavalaria em que se dava o toque de “degolar”, insistindo para que ele dê os detalhes sobre o modo de praticar a degola (FREITAS, 1996, p. 23-24).
Entende-se da passagem acima que desde a infância José Ramos demonstra grande  interesse a respeito dos feitos da guerra contados  por seu pai, em especial pelo modo de  praticar a degola.

José Ramos, na juventude, vendo sua mãe ser agredida pelo pai embriagado, toma uma faca e projeta contra seu progenitor ferindo-o gravemente, levando a morte em poucos dias.
Além disso, José Ramos, na juventude, torna-se parricida:
“[...] um dia, já rapaz, sai em defesa da mãe, espancada pelo pai bêbado. Na luta entre os dois, José Ramos lança mão de uma faca e fere gravemente o pai, que morre dois dias depois. O parricida foge para a província de São Pedro” (FREITAS, 1996, p. 24). 

Esse episódio leva José Ramos a retirar-se para a Província de São Pedro, onde se estabelece como soldado da Polícia, exercendo a função de maneira digna, até o dia que é flagrado tentando degolar um preso célebre de alcunha “Campara”, uma espécie de Robin Hood dos Pampas, sob o pretexto de que esse tentava fugir.

Dada à repercussão, é exigida a baixa de José Ramos, passando este a servir como informante da Polícia, subordinado diretamente ao Chefe de Polícia.

José Ramos, aos 26 anos, era um sujeito mestiço claro, olhos enormes, voz sinistra, barba rala, alto, extraordinária força física e sempre exageradamente perfumado.
Vestia-se de maneira impecável e possuía razoável nível de instrução.
Quase, todas manhãs, vai à missa na Matriz (Rua da Igreja) e quase sempre comunga. Fanático por limpeza, detesta a obscena sujeira da cidade (FREITAS, 1996, p. 26).
Demonstrava grande interesse pelas artes.
Além do português, fala e escreve alemão. Gosta de ler, e suas leituras prediletas são a poesia e a Bíblia, mas sua grande paixão é a música, que procura ouvir onde quer que a toquem.
José Ramos era conhecido freqüentadores do Theatro São Pedro ante a sua assiduidade aos espetáculos daquela casa.

Irônico que um sujeito que passava o dia inteiro com o cutelo em punho entre as carnes cultivasse tais hábitos.

José Ramos, aos 26 anos, começa a praticar seus primeiros crimes.
O Largo do Paraízo, região comercial junto ao porto – região do atual Mercado Público e da Praça XV de Novembro – constitui-se em principal campo de caça de José Ramos.
O assassino busca pessoas do interior, principalmente a negócios na cidade.
Quando se pensa em psicopatia, normalmente nos vem à mente um indivíduo truculento, com poucos atrativos; ou até mesmo acreditamos que seja facilmente possível reconhecer um assassino sem pestanejar, mas, ao contrário do que se pensa, nem sempre isso ocorre.

Mas, no intimo desse mesmo indivíduo sedutor, habitava um chacal que sucedeu vários ataques subtraindo a vida de várias pessoas utilizando a carne dessas para fabricar lingüiça.
José Ramos, curiosamente, cultivou um hábito especial na pratica de seus crimes:
“Tinha fascínio em degolar suas vitimas.”

Com isso, José Ramos levava a sociedade a praticar o “canibalismo inconsciente”, já que todos se deliciavam com a iguaria apetitosa que o Açougueiro produzia.
                                                                                                                                                
Carl Rathmann

De origem alemã, 61 anos, não tem ocupação ou morada fixa.
Alcoólatra inveterado, perambula de botequim em botequim, filando bebida.
Na época, vive na Cascata (Arraial), de favor, no rancho de uma chácara.

Henrique Rittman

Ferreiro alemão Henrique Rittman, conhecido pela alcunha de “o Corcunda”.

Com o aprofundamento das investigações, chegou-se ao horror maior:
“Essa pequena gangue, liderada por José Ramos, havia matado outras seis pessoas, no ano de 1863, todas elas de ascendência germânica, algumas vindas das colônias para comerciar em Porto Alegre, outras de passagem pela cidade.”

Introdução

Em abril de 1868, segundo Décio Freitas, em depoimento dado após uma confissão de culpa por escrito feita por Catarina Palse, que faz chegar às mãos do chefe de polícia um caderno, em um dialeto alemão.
Decio Freitas reproduz trechos de um e outro documento (a confissão de culpa por escrito e o depoimento posteriormente dado), deixando entender que ambos fazem parte do processo posteriormente contra José Ramos.

Em outubro de 1868, conforme Décio Freitas a reconstituição das circunstâncias das seis mortes relatadas é feita através do depoimento dado por Catarina Palse ao chefe de polícia Gervásio Campello.

Os Assassinatos

A descrição dos primeiros seis assassinatos, segundo a versão proposta pelo historiador Decio Freitas, serve para sustentar a tese da fabricação da lingüiça com carne das vítimas e do “canibalismo involuntário pela população de Porto Alegre”.
A ordem dos primeiros assassinatos é a seguinte:

- O “primeiro assassinato” de José Ramos á a morte de uma colona alemã de Santa Cruz, chamada Luísa – nunca se soube todo o seu nome –, que, segundo consta, estava em Porto Alegre para vender uma grande partida de charutos. José Ramos a conhece numa casa de pasto do Mercado Público e a convida para cear em sua casa na noite seguinte.

Em seguida, José Ramos dirige-se para o açougue da Rua da Ponte, onde confabula com Carl Claussner e Henrique “o corcunda”.
Nessa mesma noite, os dois comparsas transportam para a Rua do Arvoredo dois baús de madeira, trazidos da Alemanha por Carl Claussner, um maior e outro menor, que mais tarde será utilizado para transportar o corpo de Luísa até o açougue.

Em 02 de junho de 1863, na noite, a vítima vai até a casa de José Ramos
Em dado momento, José Ramos vai à cozinha, volta empunhando um machado; fende-lhe a cabeça de alto a baixo e em seguida a degola.
Arrasta o cadáver de Luisa para o porão e aí o esquarteja, colocando os pedaços nos dois baús.
Com a ajuda de Carl Claussner e Henrique os baús são transportados para o açougue da Rua da Ponte. Carl Claussner imediatamente põe mãos à obra, na presença de José Ramos e Henrique:
O açougueiro desossa a carne e a mói numa pequena máquina. Tempera a carne com sal, pimenta e outras especiarias. Pega tripas secas, intactas e sem furos, e ata uma das pontas com barbante. Na ponta que ficou aberta, coloca um canudo, através do qual introduz o guisado. Quando a tripa está cheia, ata a segunda extremidade com um barbante. Com uma agulha, faz pequenos furos na lingüiça, a fim de verificar se ficou algum ar. Isso feito, pendura a lingüiça num arame estendido nos fundos do açougue. No pátio do açougue, os ossos são incinerados e as cinzas jogadas no Guaíba (FREITAS, 1996 p. 113-114).
                                              
- O “segundo assassinato” duas noites depois da morte de Luísa é assassinado um colono de Nova Petrópolis chamado Afonso, que veio à capital a fim de fazer compras para si e para outros colonos.

- Com o passar do tempo, mais duas vítimas, o “terceiro e quarto assassinatos”, surgem:

- Schmitt, comerciante de São Leopoldo,

- Winkler, comerciante do Rio de Janeiro – ambos atraídos por Catarina Palse. 

Em 11 de julho de 1863, sabe-se que Luis Antônio Rodrigues Príncipe autoriza a proprietária da casa da Rua do Arvoredo a fornecer a chave da residência a José Ramos, sob sua responsabilidade pela quantia de quatorze mil réis por mês (OS CRIMES DA RUA DO ARVOREDO, 1993, p. 67), no futuro, José Ramos estará no interior da residência, ao que tudo indica à espera que entrasse, para matá-lo.

Em meados de julho de 1863, José Ramos comete o “quinto assassinato”.
Desta vez, a vítima é um alemão de Santa Catarina, cujo nome não se sabe, um marujo que ele conhece numa casa de jogo e que convida para cear em sua casa.
José Ramos procede como o de costume.

No começo de agosto de 1863, a “sexta vítima” é assassinada, trata-se de um alemão chamado Hans Fritsche, residente em Montevidéu.
José Ramos conta com o auxílio de Henrique, para arrastar a vítima até a casa onde é degolado.

De acordo com a versão de “O Maior Crime da Terra”, em todos os seis primeiros casos, os corpos das vítimas foram transformados em lingüiças, vendidas por Carl Claussner a mando de José Ramos e a baixo preço, para as autoridades da cidade. Como não pode matar os poderosos, vinga-se deles, induzindo-os à prática que infringe um sacrossanto interdito observado por todos os animais, isto é, não comer outros da mesma espécie.

Mata o AmigoClaussner

Repentinamente termina a amizade entre José Ramos e o açougueiro Carl Claussner (este se torna uma das vítimas fatais).
Isso porque, com o passar do tempo, Carl Claussner comunica a José Ramos que estava cansado daquilo e temia que a história ganhasse o conhecimento de todos; diz também que não participaria mais dos crimes e que estava pensando em mudar-se para Montevidéu.
A partir disso, o açougueiro é ameaçado por José Ramos.
Carl Claussner, por sua vez, ameaça contar tudo à polícia. Não teve tempo de fazê-lo.

Em 02 de setembro de 1863, à noite, José Ramos e Carl Rathmann montam a cavalo na Rua do Arvoredo e se dirigem para o açougue de Carl Claussner, levando o facão e a machadinha.
José Ramos possui a chave e entra, deixando Rathmann do lado de fora.
Carl Claussner é atacado enquanto dorme. O machado lhe fende a cabeça de alto a baixo. Ainda vive enquanto José Ramos o degola com o facão de dois cabos.
Ato contínuo, José Ramos passa a esquartejar o cadáver, metodicamente, como é seu costume (FREITAS, 1996, p. 77).
Os pedaços da vítima e alguns de seus pertences são transportados dentro dos baús por dois escravos-de-ganho até a Rua do Arvoredo.
No pátio, José Ramos enterra os despojos.

Nos dias que seguem, José Ramos gasta de forma abundante o dinheiro roubado da casa de Carl Claussner, dizendo a todos que havia ganho na loteria. Espalha ao mesmo tempo, que “comprou o açougue” de Claussner e faz questão de exibir um recibo que comprova a transação, que mais tarde se comprovará ser falso.
Para um comerciante português, vizinho e amigo de Carl Claussner, José Ramos disse que Claussner havia se retirado para a colônia de Nova Petrópolis.
A outras pessoas, José Ramos dirá que Carl Claussner viajou para Montevidéu.
O açougueiro de fato falava ultimamente em mudar-se para a Banda Oriental, mas seus conhecidos estranharam que não tenha se despedido.

A Pausa nas Mortes

Em setembro de 1863, sentindo-se inseguro desde a morte de seu parceiro Carl Claussner, José Ramos permanece por sete meses sem matar.

Matar Novamente

Em meados de 1864, José Ramos decide novamente matar, quando conhece o português José Luis de Caldas Quintella na casa de Luís Antônio Rodrigues Príncipe, seu fiador na casa da Rua do Arvoredo.
José Ramos aproxima-se de Quintella sob o pretexto de possuir uma letra (câmbio) de Príncipe e convida a vítima para ir até a sua casa na Rua do Arvoredo a fim de mostrar o documento.
Quintella diz-lhe que isso era mentira, pois havia um mês que ele mesmo, José Ramos, lhe dissera que se negara a emprestar dinheiro a Príncipe
No entanto, não se saber ao certo por que razão, o rapaz decide ir até a casa de José Ramos para averiguar.

No dia combinado, ao chegar à casa de José Ramos, José Luis de Caldas Quintella é recebido por Catarina Palse, que lhe diz que José Ramos havia saído, mas não se demoraria. Quando está para entrar na casa, avista por uma janela um homem que parece escutar e espreitar, cuja fisionomia lhe é desconhecida – mais tarde se saberá que se tratava de Henrique “o corcunda”.
Quintella não identifica o homem, mas intui o significado de toda a cena e decide ir embora. Foi sua salvação.
                                               
José Luis de Caldas Quintella veio a Porto Alegre a fim de arrecadar o espólio de seus dois irmãos, Manuel e Antônio, padeiros, na Rua de Bragança, assassinados dentro de casa por seus escravos Delfino, Silvestre e Camilo, fugidos para lugar incerto.
Luis Antônio Rodrigues Príncipe figura entre os devedores dos irmãos assassinados e

Quintella exige pagamento imediato, sob pena de protesto e falência.

Quando mais tarde for ouvido pela polícia, Luiz Antonio Rodrigues Príncipe negará categoricamente dever qualquer quantia a José Ramos. Comprova-se que é falsa a alegação de Ramos de que possuía uma letra de Príncipe.

Em 22 de abril de 1864, o jornal Mercantil publica uma nota a pedido de Príncipe desmentindo a notícia de que ele havia passado uma letra em seu nome a José Ramos.

Apesar de tudo, transparece que havia bastante intimidade entre os dois; não é sem motivo que Príncipe se tornou fiador da casa de José Ramos na Rua do Arvoredo.

Em abril de 1864, a polícia, quando investiga os dois últimos assassinatos de José Ramos, faz indagações sobre uma possível ligação entre ele e os três escravos que assassinaram os dois padeiros portugueses na Rua da Bragança, em junho de 1863.
Mas o suposto envolvimento de José Ramos nas mortes dos dois padeiros não é comprovado.

Após a fracassada tentativa contra José Luis de Caldas Quintella, José Ramos lança-se num estado de profunda prostração.
Esse estado de ânimo muda quando sua amante Catarina Palse lhe sugere que mate o comerciante português Januário Martins Ramos da Silva.

Em 15 de abril de 1864, uma sexta-feira, José Ramos vai à taverna de Januário Martins Ramos da Silva para lhe falar de um ótimo negócio envolvendo um carregamento de milho a preço baixo e, após, convida-o para jantar à Rua do Arvoredo, convite que foi aceito.
Durante o trajeto à casa onde ocorreria o jantar, José Ramos e o comerciante português passam por José Inácio de Souza Ávila, um dos caixeiros deste.
Januário chama José e lhe diz que se o procurarem por motivo urgente, deve avisá-lo na casa de José Ramos.
Durante o jantar Ramos vai ao quarto, volta à varanda empunhando um machado e ataca Januário ali mesmo na varanda.
Em seguida, arrasta o cadáver para o porão e o despe completamente.
Ordena a Catarina Palse que limpe o sangue, monta a cavalo e sai em busca do caixeiro José Inácio de Souza Ávila.

Encontra o caixeiro José Inácio de Souza Ávila na taverna da Rua da Igreja, e diz-lhe que Januário Martins Ramos da Silva mandara chamá-lo à casa da Rua do Arvoredo.
Segue-os um cãozinho preto com uma malha que vai da garganta ao ventre, pertence ao Januário, mas afeiçoou-se ao menino.
[...] Oferece-lhe café e pão; depois convida-o a sentar-se no sofá. Entra no quarto e volta com o machado. [...]
Depois de degolado, o corpo é arrastado para o porão.

Quando volta à sala, José Ramos ouve do lado de fora da casa um gemido doloroso de cão.
Junto à porta o bicho geme e arranha a madeira.
É agarrado e levado para o porão, e então degolado (FREITAS, 1996, p. 42-43).

Após esquartejar os dois corpos, joga as postas sangrentas num poço abandonado no pátio, cobrindo-o com lixo e galhos verdes.

Nota:
Após cada morte, José Ramos também cumpre o mesmo ritual obsessivo:
[...] Senta-se à mesa, recita um salmo da Bíblia e come sofregamente o que lhe é servido por Catarina Palse. Se escanhoa e toma um banho. Estes banhos que se seguem aos assassinatos, sempre são demorados. Nunca fica na tina menos de uma hora. Veste-se lenta e caprichosamente: camisa de seda, sobrecasaca de pano preto, colete de casimira e alfinete na gravata. Perfuma-se abundantemente, mais que o habitual [...]

Em todos os assassinatos, José Ramos segue sempre o mesmo método.
Num movimento rápido, fende a cabeça da vítima, de alto a baixo, e em seguida a degola.

O jornal Mercantil comenta o boato que “percorria” a cidade:
“A suposta cumplicidade de José Ramos na morte dos irmãos de José Luis de Caldas Quintella”.

Nota:
Os crimes do casal começam a vir à tona desde o desaparecimento do português
Januário Martins Ramos da Silva e seu caixeiro, pois a partir desses dois últimos assassinatos, começa-se a se desvendar a trama.
José Ramos comete seus sete primeiros assassinatos à noite, protegido pela semi-escuridão. Dificilmente vizinhos ou passantes identificariam as vítimas quando entravam na casa escura da Rua do Arvoredo:
“A partir de 1864, o criminoso rompe seu padrão compulsivo e passa agir de dia. As imprudências que comete no caso de Januário são tão gritantes, durante várias horas circula pela cidade na companhia de sua futura vítima.”

Os vizinhos informam à polícia que, no dia anterior, Januário e o menino foram vistos na companhia de José Ramos

Inicia a Investigação sobre os Crimes

No dia seguinte, José Ramos recebe uma intimação para comparecer imediatamente à presença do chefe de polícia.
O acusado admite ao chefe de polícia Dário Rafael Callado, que esteve com o comerciante português e seu caixeiro, mas alega que ambos embarcaram em um lanchão para o Caí.
Seus argumentos não convencem Callado e, a partir disso, o assassino passa a ser vigiado até ser preso no outro dia.

Na tarde de domingo, a mando do chefe de polícia, o subdelegado Antonio Caetano Machado Pinto, acompanhado do inspetor José Antonio de Sousa Ribeiro Júnior e da testemunha, dirige-se até a casa de José Ramos a fim de fazer uma busca, “visto haver desconfiança de que Januário se ocultava aí fugindo de credores” (MERCANTIL, 19 abr. 1864, p. 2).
“Entretanto, o que encontra por lá pode ser comparado a uma cena de filme de terror:
Começando-se a cavar saíram à flor da terra alguns ossos humanos [...] No porão da casa foram encontrados os ossos putrefatos de um cadáver e ossamenta humana. Não eram, porém, os corpos dos que procurava” (id., ibid., p. 2).

Havia, no entanto, no quintal um poço, que o suspeito repentinamente entulhara e sobre o qual convergiam as desconfianças: 
Às primeiras enxadadas começaram a aparecer pedaços de carne humana e pouco depois dois cadáveres reconhecidos como serem de Januário e do menino; e do cãozinho que o acompanhava. [...]

Os corpos achavam-se literalmente esquartejados tendo a cabeça separada  do corpo e este dividido em muitas partes.
A bengala, os sapatos, o chapéu de Januário foram encontrados em diversas partes da casa, bem como os sapatos e chapéu do menino José Inácio.
Encontraram-se, além disso, duas machadinhas, uma serra, cordas e uma machadinha nova ainda embrulhada em papel pardo (id., ibid., p. 2).

Em 18 de abril de 1864, segunda-feira pela manhã, o chefe de polícia Dário Rafael Callado se apresenta à Rua do Arvoredo, para proceder a uma apreensão na casa do casal. 
No interior da casa as manchas de sangue são evidentes.
No porão da cozinha são achados dois machados, bem como uma serra.
São apreendidos vários objetos que depois se revelarão provas decisivas, entre eles, a chave da taverna de Januário Martins Ramos da Silva, encontrada no meio de umas moitas.
Sob ordens de Dário Callado, os dois galés que acompanhavam a comitiva policial são postos a escavar no pátio e encontram os restos de três corpos.
Dois deles são identificados como sendo de Januário Martins Ramos da Silva e seu caixeiro José Ignácio de Souza Ávila.
O chefe de polícia não consegue identificar a quem pertencem os restos do terceiro corpo encontrado. 

Dário Callado pergunta:
- De quem é o cadáver encontrado nas duas covas do pátio?
- Ramos, Catarina e a escrava Senhorinha.
- Declaram que não sabem.
O chefe de Polícia verifica ser inútil insistir: - não têm idéia de quem possa ser.

O chefe de Polícia manda reconduzir os três à prisão e intensifica as investigações sobre a identidade do desconhecido.

Ao entardecer, surge a hipótese de que os restos cadavéricos das duas covas sejam de Carl Gottlieb Claussner, o açougueiro da Rua da Ponte, desaparecido desde setembro de 1863 (FREITAS, 1996, p. 52).

Após a descoberta dos cadáveres no quintal da casa de José Ramos, dadas as inegáveis evidências do crime, tornou-se inevitável que as autoridades competentes tomassem uma resolução adequada para o caso.

José Ramos e Catarina Palse são presos e conduzidos para a delegacia.
Pressionado pela opinião pública, o chefe Polícia Dário Callado imprime excepcional importância ao inquérito, ouvindo em quatro dias os acusados e todas as testemunhas, presidindo o processo judicial na condição de doutor juiz de direito e chefe de polícia.

  Interrogatórios

Os interrogatórios acontecem nos dias 18 a 22 de abril de 1864.
Primeiro interrogasse Catarina Palse.
Sua estratégia consiste em admitir aquilo que não pode ser negado:
- A autoria de José Ramos no assassinato das pessoas cujos cadáveres foram encontrados no quintal.
Catarina Palse tenta atenuar a sua responsabilidade, alegando que foi mera espectadora.                                              

No depoimento à polícia, Catarina Palse mostra-se disposta a ajudar, respondendo a todas as perguntas com energia e coragem, dirá o jornal Mercantil (19 abr. 1864).
A postura de colaborar com as investigações não passava de uma tática para ludibriar a polícia, de diminuir as suspeitas sobre seu envolvimento nos crimes e assim incriminar José Ramos. Catarina Palse afirma que estava presente quando o “marido” trouxera para casa, primeiro Januário, depois o caixeiro.
Entretanto, para defender-se da responsabilidade dos crimes, declara não ter presenciado os assassinatos. Desculpa-se por não ter denunciado às autoridades os crimes cometidos por José Ramos, alegando sentir medo do companheiro.

No entanto, o Mercantil traz um fato que levanta a suspeita de que Catarina Palse não era tão inocente como aparentava. O jornal noticia que Catarina Palse durante o seu depoimento confessa ao chefe de polícia que, enquanto José Ramos perpetrava as mortes e o esquartejamento, ela teria presenciado “essa selvagem operação de uma janela” (19 abr. 1864, p. 2).  

A escrava que atendia pelo apelido de Senhorinha morava na casa de José Ramos.
Ali pernoitava e comia; nos intervalos do seu trabalho de lavadeira, trabalhava na casa, embora não fosse sua escrava.
Também, mais tarde, é interrogada pela Polícia.
O depoimento da lavadeira Senhorinha, também moradora na casa do assassino, é em tudo comprometedor para Catarina Palse e também para José Ramos
Declara nada ter visto, pois na noite que se perpetrou o crime fora fechada em seu quarto por Catarina Palse e achara-se impossibilitada de sair. Esse detalhe aponta para a culpabilidade, o envolvimento de Catarina Palse nos crimes. Além disso, ela afirma ter visto na sala da casa de José Ramos um homem velho, e também ter visto horas depois a patroa limpar as manchas de sangue da escada, dirá o Mercantil (19 abr. 1864).
 Após prestar depoimento, Senhorinha é liberada, pois se constata que ela não estava envolvida nos assassinatos. 

No decorrer do dia, as investigações reforçam a suposição de que os restos encontrados no porão pertenciam ao açougueiro Carl Gottlieb Claussner.
Amigos identificaram como do açougueiro objetos encontrados na casa de José Ramos. A comprovação vem dos médicos legistas Joaquim Pedro Soares e Manuel Pereira da Silva Ubatuba, que, mesmo atestando em seu laudo a completa decomposição do cadáver, observam um brinco de ouro preso aos restos mortais da vítima.
O prussiano João Tehse, amigo de Claussner, faz a identificação cabal, afirmando que o amigo usava um brinco de ouro na orelha esquerda (FREITAS, 1996, p. 75).

Vale ressaltar que das primeiras diligências feitas na casa da Rua do Arvoredo ao julgamento foi tudo muito rápido.

Nota:
Em relatório à Corte no Rio de Janeiro, capital do Império, o presidente da Província, João Marcelino, gabará a “pronta e eficiente ação da Polícia”.

Os parentes destas comunicaram seus desaparecimentos à Polícia; inclusive o cônsul alemão pediu providências, mas não há notícia de qualquer diligência policial (FREITAS, 1996, p. 48).

É importante lembrar que os acusados nessa ocasião são interrogados a respeito dos três corpos encontrados na casa da Rua do Arvoredo:
De Januário Martins Ramos da Silva, seu caixeiro José Ignácio de Souza Ávila e o açougueiro Carl Gottlieb Claussner.

Em seguida, Dário Callado interroga José Ramos.
O interrogatório deste será pobre em resultados. Apesar das evidências mais clamorosas, ele negará tudo sistematicamente, sustentando versões inverossímeis.
Nessa ocasião, José Ramos insinua que os assassinatos foram obra de Catarina Palse e Henrique, “o corcunda”.
Ao ser mencionado, Henrique também é chamado para prestar depoimento.

Henrique teve participação nas seis primeiras mortes.
Ao ser questionado sobre Carl Claussner, nega havê-lo sequer conhecido, despistando qualquer suspeita. Dessa forma, o chefe de polícia manda-o em paz, livre de suspeitas.

Nesse mesmo dia, além de outras pessoas, tais como amigos e vizinhos de Carl Claussner e de José Ramos, é ouvida Senhorinha. Suas declarações comprometem a versão através da qual Catarina Palse procurou isentar-se de envolvimento nos assassinatos.
Também Carlos Rathmann, apesar de seu envolvimento no crime de Carl Claussner, sai-se bem no interrogatório. 

Durante o interrogatório dos acusados, os comerciantes alemães fecham as portas dos seus estabelecimentos, por precaução, pois corriam notícias de que o comerciante português Januário Martins Ramos da Silva e seu caixeiro José Ignácio de Souza Ávila teriam sido executados por imigrantes de origem germânica.

O leitor fica a par de alguns detalhes, como, por exemplo, o modo pelo qual se deu a morte de Januário e do menino José.

Embasado nos relatos de Catarina Palse, o jornal Mercantil noticia:
Achavam-se à mesa jantando Januário e José Ramos quando foi aquele vítima de uma machadada que o assassino lhe descarregou da direita para a esquerda, e que entalhou o machado no crânio de Januário.
Quando o menino José tomava ele mate sentado no sofá da sala quando José Ramos que se achava ao lado deu-lhe duas canivetadas sobre o coração e arrastou-o para o quarto sobre a cama onde deu-lhe um golpe de machado que lhe tirou a vida de todo (22 abr. 1864, p. 2).

Julgamento

Os julgamentos pelo júri são marcados para os dias 12 e 13 de agosto de 1864.
São realizados na Câmara de Vereadores.

Em 20 de abril de 1864, no jornal Mercantil aparece pela primeira vez a identificação de José Ramos como açougueiro.
A partir disso, o açougue passa a ser mencionado como negócio. Até então, o que era sugerido nesse jornal é que José Ramos havia tido um súbito enriquecimento, com provável origem no roubo das vítimas.
O jornal também relata que, após o desaparecimento de Carl Claussner, José Ramos tomou posse do açougue e divulga pela cidade a notícia de que o comprara do próprio Claussner e que este se retirara para Buenos Aires.
Interrogada a propósito da morte de Claussner, Catarina Palse afirma desconhecer as circunstâncias em que ocorreu a tal morte.
No entanto, diz lembrar que “na época as diversas peças de fato e outros objetos foram trazidos pelo assassino para casa” (MERCANTIL, 21 abr. 1864, p. 2).

Canibalismo

- Não há nas páginas do Jornal Mercantil e tampouco no Deutsche Zeitung, os jornais que vinham acompanhando e noticiando de perto o caso, uma ligação entre os assassinatos e a venda da carne à população.

- O Diógenes, porém, é o primeiro jornal a que se teve acesso, a mencionar a palavra “canibalismo”, ao se referir aos assassinatos de Januário e seu caixeiro, cometidos por José Ramos e seus cúmplices:
“Um desses crimes sem nome, um ato de verdadeiro canibalismo, acaba de ser perpetrado no centro de nossa cidade; revestido de todas as ferozes circunstâncias que se pudessem imaginar” (24 abr. 1864, p. 1).

Entretanto, no decorrer da notícia a expressão “canibalismo” não se repete, e poderia estar se referindo a um ato de selvageria e nada mais.

Em 07 de maio de 1864, o jornal Deutsche Zeitung noticia que:
“José Ramos continua negando, mas já caiu em contradições durante o interrogatório e deu o braço a torcer”.

Informação um tanto duvidosa, pois se sabe através do processo criminal, examinado a seguir, que José Ramos nunca chega a confessar os crimes.
Catarina Palse, por sua vez, continua a sustentar as revelações que fez à polícia.
E Henrique a negar sua participação no crime, dirá o Mercantil (26 abr. 1864, p. 1).

Em 12 de maio de 1864, José Ramos e Catarina Palse são julgados pelo assassinato de Januário Martins Ramos da Silva e seu caixeiro José Ignácio de Souza Ávila.

Comparecem para depor:
- O prussiano Gustavão Adolfo Eduardo Koboldt,
- O negociante português José Luis de Caldas,
- Augusto Karim,
- O negociante português Luis Antonio Rodrigues Príncipe,
- João Gabriel Vonkerkove e sua esposa, a prussiana Isabel Bossing – anos depois, ela terá papel importante na revelação dos crimes da lingüiça de carne humana – basicamente essas pessoas confirmam tudo quanto se apura, mas não dizem tudo o que sabem.

A Sentença

José Ramos e Catarina Palse são pronunciados e, segundo as estimativas do jornal alemão Deutsche Zeitung, devem, após o encontro do tribunal do júri, aguardar sua sentença.

Nota:
(O Art. 271 do Código Criminal determina: - Se para praticar roubo, ou se durante o ato houver morte, pena de morte no [grau] máximo, castigo perpétuo em galés no [grau] médio e pena de vinte anos no grau menor) (21 mai 1864, p. 3). 
 
- José Ramos é condenado à pena de morte na forca.

- Catarina Palse, por sua vez, como cúmplice, a 13 anos e 4 meses de prisão, com trabalho. 

O interesse pela sentença foi realçado pela presença de importantes personalidades, entre elas:
- Silveira Martins, “o Tribuno”,
- O jornalista Carlos von Koseritz e
- O escritor Caldre Fião.

No Rio de Janeiro, capital do Império, o imperador Dom Pedro II, “magnânimo”, voltou atrás, e deu a pena de prisão perpétua ao açougueiro José Ramos.

A pena de prisão perpétua retrocedeu-se para uma prisão por tempo limitado, e mesmo assim, dada a intimidade de José Ramos com os esquemas policiais da cidade, ele teve muitas regalias.

Sabe-se que José Ramos conseguiu amenizar as condições de sua prisão.
Ele compartilha a cela com um mulato chamado Joaquim, proprietário de um escravo, valendo-se dos seus serviços para fazer a limpeza da cela e outros serviços mais que competem ao acusado.

José Ramos receberá privilégios na cadeia, compartilhará da comida dos guardas.
Tanto no interior do presídio como fora dele, é escalado para supervisionar o trabalho dos demais presos.

Novo Julgamento

Em 13 de agosto de 1864, em novo julgamento, José Ramos e Carlos Rathmann são julgados pela morte de Carl Gottlieb Claussner.

José Ramos é condenado a 14 anos e um mês de prisão com trabalho e a pagar uma multa de 150 mil réis, importância resultante de uma avaliação judicial dos objetos e pertences de Carl Claussner furtados do açougue.

Carlos Rathmann, é absolvido por unanimidade, pois o próprio promotor considera muito frágeis as provas contra ele.

Catarina Palse, por sua vez, é deixada de fora, pois o juiz tem a faculdade de absolver o acusado sem julgamento pelo júri.

José Ramos e Catarina Palse passam a cumprir a pena no presídio nas proximidades da Praça da Harmonia.
Sabe-se que são permitidos encontros esporádicos entre o casal.

Passar dos Anos

A partir de 1866, Catarina Palse se recusa à novos encontros com José Ramos.

Caderno de Catharina

Em abril de 1868, Catarina Palse, segundo a versão do historiador Decio Freitas, teria feito chegar até as mãos do novo chefe de polícia Gervásio Campello, substituto de Dário Callado, “um caderno, no qual há 54 folhas escritas a lápis, em dialeto alemão” (FREITAS, 1996, p. 104). 

Em agosto de 1868, a autoridade pede ao intérprete Júlio Henrique Knorr que traduza o texto do caderno de Catarina Palse. Trata-se de um texto que concilia citações da Bíblia com revelações sobre os crimes.

Em outubro de 1868, o chefe de polícia Gervásio Campello recebe Catarina Palse, que deseja contar toda a verdade sobre os crimes, motivada pelo relacionamento de amizade e religioso que mantinha com Isabel Kerhkove.
Catarina conta a Campello o envolvimento de José Ramos com Carl Claussner e a maneira que encontraram de impedir que os assassinatos viessem a ser provados.
Para isso, as vítimas seriam esquartejadas e suas carnes usadas para fazer lingüiça, de modo que os cadáveres desapareceriam e nunca se poderia provar nada.
Catarina relata as circunstâncias das mortes das seis vítimas de José Ramos em 1863, de cujos corpos foram feitas lingüiças a serem consumidas pela população de Porto Alegre, em especial pelas autoridades da região.
                                       
Nota:
A informação fornecida pelo historiador Decio Freitas de que Catarina Palse, em abril do ano de 1868, faz chegar até as mãos do chefe de polícia Gervásio Campello o suposto caderno com suas confissões, e mais tarde, em agosto do mesmo ano, Campello teria pedido a tradução do conteúdo do caderno, é duvidosa, pois consta no quadro de correspondência entre presidentes da Província e chefes de polícia do Rio Grande do Sul na década de 1860, que Gervásio Campello foi nomeado e tomou posse do cargo no ano de 1865 e teria se exonerado no dia 06 de novembro de 1867, removido para Santa Catarina.
Portanto, um ano antes da data em que, segundo Decio Freitas, Campello teria recebido o caderno com as confissões de Catarina Palse, o chefe de polícia já estava trabalhando fora do Rio Grande do Sul.
Ficou em seu lugar Belarmino Peregrino da Gama e Mello, nomeado no dia 6 de novembro de 1867 e exonerado em junho ou julho de 1868, e este, por sua vez, foi substituído por João Coelho Bastos, que permaneceu entre 29 de agosto de 1868 e 20 de agosto de 1870.
Esses dados nos permitem pensar que Décio Freitas possivelmente se tenha equivocado quanto ao nome do chefe de polícia que teria recebido os escritos de Catarina Palse (ANEXO 12, apud ELMIR, 2008, p. 282).

O novo depoimento de Catarina Palse é reconstituído através do livro de memórias de Francisco José Furtado, chamado Minhas viagens pelo Brasil (Recife, 1891).
Furtado, magistrado maranhense, teria assistido ao interrogatório (FREITAS, 1996, p. 136) que involuntariamente teriam praticado o canibalismo. Conta-lhe sobre a cumplicidade de
Henrique Rithmann e de Carlos Rathmann nos crimes. Afirma ainda que José Ramos e seus comparsas eram canibais conscientes, pois em todos os casos provaram a lingüiça antes de colocá-la à venda, inclusive ela própria também teria consumido a lingüiça de carne de gente.
Ela confessa seu envolvimento direto em pelo menos duas mortes, de Schmitt e Winckler, os homens que atraiu no Beco do Céu. Sua cumplicidade militante se constitui também no fato de instigar e animar José Ramos a cometer os assassinatos. Depois expõe as razões do assassinato de Carl Claussner.

O Caso é Reaberto

Em 1868, José Ramos e Henrique Rithmann são chamados para prestar novo depoimento.
- José Ramos nega tudo.
- Henrique, “o corcunda”, por sua vez, confirma tudo o que dissera Catarina Palse.

Nessa ocasião, é chamada também para ser ouvida Isabel Kerhkove, que afirma no ano de 1863, ter sido confidente de Catarina Palse, que lhe contou os crimes de José Ramos.

O chefe de polícia Gervásio Campello resolve ouvir alguns alemães que já haviam prestado testemunho em 1864:
“Para espanto de Campello, todos admitem que em 1863 tinham ouvido falar nos assassinatos e na fabricação de lingüiça de carne humana, mas não tinham certeza e temiam fazer acusação falsa” (FREITAS, 1996, p. 123).

Terminadas as inquirições, o chefe de polícia hesita sobre o próximo passo a dar no inquérito, frente à situação de não se poder prever qual seria a reação dos moradores da cidade quando soubessem que de fato teriam consumido carne humana feita pelas mãos de açougueiro alemão.
“As conseqüências seriam imprevisíveis, e na hipótese mais favorável, criar-se-ia um clima de persistente hostilidade aos imigrantes, desestimulando a política imigratória que o governo imperial desenvolvia com excelentes resultados econômicos”.
(FREITAS, 1996, p. 125).

Em prol da ordem pública, o chefe de polícia, no exercício das funções de juiz de direito, decide, então, que, embora as confissões fossem convincentes, não bastariam para suprir a falta do corpo de delito.
Dessa forma, impõe-se a impronúncia dos acusados.

Em 1877, cumprida integralmente sua pena, Catarina Palse é posta em liberdade, quando já tinha 41 anos de idade.
Fora da prisão, ela é vista nas ruas de Porto Alegre, cancerosa, Catarina vai viver na Santa Casa, onde prestará serviços como faxineira.

Nota:
Aquiles Porto Alegre, em Histórias de Porto Alegre, afirma:
“Por volta de 1884, eu encontrei Catharina, mais de uma vez, com um grosseiro chapéu de palha na cabeça e chinelos sem meias, atravessando as ruas da cidade [...]. Estava cancerosa e apresentava um aspecto repugnante, ao ponto de eu nunca poder explicar com que atrativos aquela mulher fatal, com promessas de amor, fez tantas vítimas!” (1940, p. 183).

De Henrique, “o corcunda”, nada se saberá.

Em 1879, José Ramos, por sua vez, contrai pneumonia e é internado na Santa Casa.
Depois, mesmo curado da doença, continua vivendo no hospital. Torna-se benquisto entre os médicos e administradores, e a certa altura trabalha como auxiliar de enfermagem.

Em 1891, Catarina Palse morre e é enterrada como indigente no cemitério da Santa Casa.

Em 1º de agosto de 1893, José Ramos morre na Santa Casa, leproso e cego dois anos depois da morte de sua parceira Catarina Palse.

O crânio de José Ramos foi conservado pelos médicos para posteriores estudos.
                                              
Nota:
A descrição de José Ramos feita por um jornal por ocasião de sua prisão, em 18 de abril de 1864, já aponta a fragilidade de sua saúde:
“Este é um homem de cara oval, faces pálidas e cadavéricas, olhos felidos [sic], nariz aquilino e recurvado, barba negra e cabelos também negros. É homem muito doente, alto, mas de corpo franzino” (MERCANTIL, 19 abr. 1864, p. 2).

Os Jornais

Estamos na Porto Alegre do século XIX, com pouco mais de 20 mil habitantes.
Todos deviam se conhecer e também construir, pelo que viam e ouviam a respeito dos crimes da Rua do Arvoredo, a sua própria versão dos fatos.
Entretanto, os primeiros meios responsáveis por construir o fato em narrativa e por manter os leitores informados sobre os últimos acontecimentos que sacudiram a cidade são os jornais da época, como o Mercantil, o Deutsche Zeitung, o Diógenes, entre outros.

- O Mercantil foi o primeiro jornal a noticiar a descoberta dos crimes perpetrados por José Ramos em 19 de maio de 1864, que relata em primeira mão o ocorrido:
“Ontem a população de Porto Alegre passou o dia sob a pressão de um horrível acontecimento. Perpetrara-se um crime revestido de horrorosas circunstâncias” (p. 2).

- O Deutsche Zeitung, jornal publicado em alemão, um dia depois, fornece detalhes importantes aos leitores:
Em nossa pacata Porto Alegre os habitantes tornaram-se testemunhas de crimes nunca vistos. Um antigo policial da corporação local de nome José Ramos, descendente de alemães e oriundo de Sta. Catharina, tirou de uma maneira terrível a vida de duas pessoas na sexta-feira dia 17 de abril. Ele soube atrair suas vítimas para sua casa, uma após a outra, quando as convidou para uma refeição amigável e as assassinou de forma assombrosa (20 abr. 1864, p. 3).

- O Deutsche Zeitung noticia a entrada da polícia no estabelecimento:
“Entretanto, nenhum vestígio foi encontrado, a não ser que a gaveta do dinheiro estava vazia. Depois de muito perguntar aqui e ali, o chefe de polícia ouviu que José Ramos foi o último a ter estado lá” (20 abr. 1864, p. 3).


A Revolta Popular

- O Deutsche Zeitung noticia que no primeiro dia de interrogatório do criminoso e de sua concubina ocorreu um grande escândalo:
“Uma massa de pessoas aglomerou-se em frente à casa do chefe de polícia e exigiu a entrega do assassino para praticar a justiça popular. A situação foi tão longe que a massa mostrou sua violência por meio do lançamento de pedras e garrafas quebradas. Entretanto, foi dispersa pelas tropas que foram convocadas e conduziram o dito criminoso para a cadeia. Infelizmente houve feridos, tanto na massa quanto entre a tropa. Comenta-se inclusive que um dos feridos já teria morrido” (23 abril 1864, p. 3).

- O Mercantil lamenta a atitude da população e lamenta mais ainda:
“A energia da autoridade no cumprimento de seus deveres, como a parte ativa que tomou a população porto alegrense, que lavrou um solene de tão sanguinária página em um lugar onde a paz otaviana reinava” (19 abril 1864, p. 2).

No relatório aos presidentes da Província, dirá o chefe de polícia Dário Callado que as praças “a ninguém ofenderam, por se ter ordenado pontaria alta”.

Entretanto, nas suas memórias, o cônsul Caillois fornece versão diferente: 
“A multidão se compunha de caixeiros de comerciantes portugueses, de pessoas habitualmente desocupadas e mesmo de alguns escravos. Sua cólera era muito grande e aparentavam não ter medo dos soldados. Os choques foram violentos e na altura do palácio presidencial morreram duas pessoas, uma das quais, um marujo fluvial e a outra um preto”.

- O Diógenes, por sua vez, posiciona-se a favor do chefe de polícia Dário Callado e exalta a sua atitude.
Segundo esse jornal, ao chefe de polícia não sobraria outra opção a não ser tentar conter a agressão por parte do povo, que se tornava ainda mais acentuada nas proximidades da cadeia.
Ainda segundo a versão jornalística, Callado estava apenas tentando cumprir o seu dever, dando ao criminoso a proteção e a inviolabilidade que lhe garante a lei.
O jornal argumenta que:
“Não se mandou fazer violência ao povo, e que esses poucos casos de ferimentos acham a sua natural explicação na necessidade que tinham os soldados de defender-se”. (24 abr.1864, p. 2). 
                                             
Podemos sublinhar que a revolta por parte da população está associada ao fato de os envolvidos nos crimes serem de origem alemã.

- O Deutsche Zeitung referenda a informação de que o assassino era descendente de alemães (20 abr. 1864).

Com o desenrolar dos fatos, intensifica-se a suspeita da presença de mais alemães envolvidos nos crimes.
Inclusive, muitos alemães comparecem no tecer da narrativa, a circular em torno das vítimas ou do próprio assassino, que se auto-apresentou como descendente de alemães.
Henrique Rithmann não falava português, só lia e escrevia em alemão. 
O alemão Carl Rathmann também morara por um período na casa de José Ramos. Deduz-se, então, que José Ramos e Catarina Pulse por entender e falar o alemão, teriam laços estreitos com os alemães. 

Os jornais consideram também, entre as motivações para a manifestação violenta da população, a impressão horrorosa causada pelo assassinato duplo de uma criança e de um velho e o fato de ser de conhecimento público a brutalidade com que José Ramos atacava as vítimas.

- Dirá o Mercantil:
“As horrorosas circunstâncias do crime se tinham espalhado, e o horror e indignação transbordavam”.

Quando fez dele vítimas um velho e uma criança.
O requinte de malvadez tocou a seu auge nessa fera com forma humana.
A impavidez no crime era extrema; depois de matar suas vítimas para roubá-las ainda as trucidava e esquartejava para melhor esconder as provas de seus feitos (MERCANTIL, 19 abr. 1864, p. 2).

Aparece o Processo Criminal

DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 15 dez. 1948, p. 11. 1.3 PROCESSO CRIMINAL 1070
Em 1993, a redescoberta do processo n.º 1070 levou o Arquivo Histórico a resolver publicar o seu texto na íntegra, bem como outros documentos jornalísticos que foram anexados aos autos, num livro denominado “Os crimes da rua do Arvoredo”.
A iniciativa de divulgar o conteúdo de um dos processos criminais a respeito dos crimes cometidos por José Ramos torna-se de suma importância, pois permite o acesso às fontes primárias, fornecendo elementos essenciais para análise crítica de informações veiculadas nas diversas narrativas orais e escritas produzidas sobre tais crimes no decorrer de quase 150 Anos.
Permite ainda a reconstituição dos fatos, embasada na argumentação e nas provas arroladas, possibilitando que o leitor, no desenvolvimento dos fatos, se transporte à Porto Alegre de 1864 e, num exercício de imaginação, seja co-partícipe dos escabrosos eventos.

Apresentam-se anexados junto ao processo criminal referente aos crimes da Rua do Arvoredo algumas peças documentais não integrantes dos autos:
Almanaque Literário e Estatístico para 1897, Anuário Indicador do Rio Grande do Sul, História Popular de Porto Alegre, de Aquiles Porto Alegre, e o jornal O Diógenes de 24 de abril de 1864.

Quando o Arquivo Histórico publica esse documento, está implícito que o processo é fidedigno, que ele passou pelo crivo da crítica externa do testemunho.
No entanto, vale ressaltar que não estamos desconsiderando, é claro, entre outros fatores, que tal peça jurídica é um discurso, com menor grau de subjetividade, mas ainda assim um discurso.

Em 1962, o jornalista Coruja Filho escreveu:
“Na manhã de 15 de abril de 1864, os vizinhos de Januário, proprietário de um estabelecimento de secos e molhados, surpreenderam-se ao verem que o armazém estava fechado, assim permanecendo durante todo o dia. Dessa forma, levam o fato à polícia, o delegado Antônio Caetano Machado Pinto procede às primeiras averiguações, vindo a saber que Januário, poucos dias antes, teria sido visto na rua, em companhia de José Ramos.”

Às 17 horas, foi a autoridade à casa de José Ramos, à Rua do Arvoredo, investigar.
O delegado, procurando falar a Ramos, disse querer obter algumas informações sobre o Januário e do caixeiro, consta apenas o interrogatório a que foram submetidos José Ramos, Catarina Palse, Senhorinhaescrava de ganho –, Henrique Rithmann, Carl Rathmann e outros conhecidos do casal e das vítimas.

Tudo mais o que segue, é sobre o assassinato de Carl Claussner:
- Interrogatório de acusados, inquirição de testemunhas, perícias, instrução judicial e finalmente julgamento dos réus José Ramos e Carl Rathmann.

Em 18 de abril de 1864, no processo criminal consta que na busca e na exumação ocorridas na casa de José Ramos, foram descobertos no pátio da residência os cadáveres de Januário, do caixeiro e um não-identificado em avançado estado de putrefação:
Após da remoção de alguma terra, apareceram ossos das extremidades inferiores e da bacia de corpo humano; prosseguindo o trabalho de escavação, no fundo de uma cova com três palmos de comprimento e dois de largura foi descoberto o resto de um cadáver humano ainda envolto em roupa, porém em avançado estado de putrefação [...].
No quintal, em um poço coberto de lixo e ramos verdes foram descobertos dois cadáveres, um de adulto e outro de menor, partidos em pedaços; estando as cabeças separadas dos troncos, estes mutilados e separados das extremidades, algumas das quais estão também mutiladas; ambos os cadáveres pareciam enterrados de pouco [...] Ambos os cadáveres estavam envoltos em roupas, e pelas pessoas presentes foram reconhecidos como os de Januário Martins Ramos da Silva e José Ignácio de Souza Ávila. Dentro do mesmo poço foi encontrado morto um pequeno cão de pelo preto [...] reconhecido como pertencente a Januário.
 
A fim de encontrar mais provas para os atos criminosos, as investigações prosseguem pelos diversos cômodos da casa.
Foi encontrado, entre outros objetos suspeitos, a chave da venda de Januário, um par de botinas de criança, dois baús, mais tarde identificados como pertencentes a Carl Claussner, dois relógios de ouro, entre outros objetos de valor, objetos incomuns para um homem de poucas posses e sem profissão definida.
Mas havia provas mais importantes e comprometedoras:
Na cama na parte exterior do travesseiro, junto aos pés, havia três nódoas de sangue como de mão suja que ali passou; sobre a mesma cama, que estava feita, um rodapé de cassa manchado de sangue, porém mal lavado; no assoalho em frente à porta uma larga nódoa de sangue coalhado, com especialidade embaixo da cama [...].
No passadiço por baixo da escada, dentro de um cesto entre outros objetos, uma escova e um trapo manchados de sangue ainda vivo.
No porão da cozinha encontram-se dois machados de cabo curto, um de cabo mais comprido e uma serra (CRA, 1993, p. 13).
                                                                                                                                                  
Sobre o misterioso desaparecimento do comerciante. “Responde-lhe José Ramos, com um modo grosseiro, que nada sabia a respeito, negando ter andado em companhia do pobre taverneiro” (p. 96-97).
O delegado insiste no interrogatório e José Ramos cai em contradições comprometedoras, daí a polícia toma a iniciativa de fazer uma busca na casa. 

O auto de perguntas feitas a Catarina Palse a respeito das mortes de Januário e do caixeiro José e o seu depoimento no dia da apreensão na casa são bastante esclarecedores quanto à forma com que se sucederam os assassinatos das vítimas, mas não revelam toda a verdade sobre os crimes.
Catarina Palse afirma que na sexta-feira do crime esteve em sua residência Januário, proprietário de um estabelecimento na Rua da Igreja (atual Duque de Caxias), convidado por José Ramos para jantar.
Seriam quatro horas quando a interrogada declara ter saído para dar água às galinhas, e, quando voltou, achou o comerciante caído no chão.
Depois disso, José Ramos o teria agarrado e arrastado para o porão.
O homem tinha dois ferimentos na cabeça, sangrava muito e ainda estava vivo (CRA, 1993, p. 14).

Declara ainda que José Ramos, depois de ter depositado o corpo do comerciante no porão, já morto, saiu e voltou trazendo consigo um menino – o caixeiro de Januário –; os dois sentaram-se à mesa e puseram-se a comer.
Mais tarde, Catarina Palse diz ter saído para falar com a preta Senhorinha, perguntar-lhe se tinha água para o mate e, quando voltou para a sala, encontrou José Ramos arrastando o corpo do menino, já morto.
O garoto também tinha duas grandes feridas na cabeça. 
Catarina Palse ao ser questionada sobre o local em que José Ramos depositara os dois cadáveres responde que, depois de cortar os dois corpos em pedaços, Ramos os teria levado para o quintal e os atirado em um poço e coberto com areia.
A tudo isso Catarina teria assistido da janela da varanda.
À pergunta sobre a quem pertencia o cachorro preto enterrado na mesma cova do homem e do menino, Catarina afirma que era de Januário, que o havia trazido consigo. José Ramos teria matado o animal à noite (CRA, 1993, p. 14). 

A interrogada revela que o instrumento utilizado por José Ramos nos crimes teria sido um dos machados apreendidos na casa (CRA, 1993, p. 14).
O chefe de polícia Dário Callado mostra-lhe vários objetos, que ela identifica como pertencentes às vítimas. Nesse momento, pela primeira vez, Catarina Palse cai em contradição.
Diz reconhecer os botins que lhe foram apresentados, como pertencentes ao menino assassinado por Ramos. Afirma que estava na varanda quando José Ramos os atirou lá de baixo e que não sabia que ele matara o garoto também. Essa declaração não coincide com a anterior, de que encontrou o menino morto na sala depois que fora falar com Senhorinha.
Teria ouvido um gemido do garoto e barulho de alguma coisa caindo, lá embaixo, no porão. Foi então que José Ramos atirou os botins do menino e apareceu arrastando o corpo.
Frente ao que foi exposto, observamos no discurso da interrogada algumas contradições e omissões em sua confissão, pois era por demais, ingênua a explicação de que, quando Ramos perpetrava os dois crimes da tarde de sexta-feira, ela estava ausente.
Percebemos a estratégia de Catarina de tentar atenuar sua culpabilidade, alegando que fora mera espectadora dos crimes e confirmando apenas a autoria de José Ramos no assassinato de Januário e de seu caixeiro, cujos cadáveres foram encontrados no quintal.

Inquirida pela polícia, Catarina Palse diz ter 27 anos, ser solteira, filha de Huberto Palse, natural da Hungria, trabalhar como engomadeira e não saber ler nem escrever (CRA, 1993, p. 14).

No entanto, sabe-se depois que “Palse” seria o sobrenome do marido falecido e não de seu pai. Declarando-se solteira, Catarina é referida no processo como amásia de José Ramos. Portanto, não pertencia ao que se convencionava chamar a "ordem formalmente estabelecida".
Logo, não apresentava o que se entendia por boa conduta, impressão esta agravada por declarações suas, no andar do processo, de que costumava sair à noite de casa e que uma das vezes voltara depois da meia-noite, fato estranho, pois nenhuma mulher respeitável se arriscava, em 1864, a andar à noite e ser rotulada como prostituta.

No entanto, o depoimento da escrava que atendia pelo apelido de Senhorinha, também moradora da casa da Rua do Arvoredo, compromete a versão através da qual Catarina Palse procurou isentar-se do envolvimento nos assassinatos, trazendo novos e relevantes elementos para a elucidação do caso.
Senhorinha confirma ter visto Januário sentado no sofá da sala com José Ramos.

Depois disso, teria saído para lavar roupas e, ao voltar, não vira mais o proprietário da venda, e sim encontrou Catarina Palse lavando a escada manchada de sangue.
Quando ela perguntara de quem era o sangue, a patroa lhe teria respondido que era de uma galinha que José Ramos havia matado e jogado pela janela, de modo espalhara sangue pela casa.

Mais tarde, Senhorinha avista um menino sentado no sofá. Ao retornar à casa, não o vê mais (CRA, 1993, p. 19).

Outro indício que aponta para o envolvimento e a cumplicidade de Catarina Palse nos crimes é o fato de ela ter trancado a porta da cozinha e a outra do meio da casa que dava acesso à sala. Provavelmente tenha feito isso para que José Ramos terminasse de esquartejar as vítimas que matara naquele dia.
Dessa forma, a lavadeira não podia sair nem para o quintal, nem para a rua.
Catarina Palse, ao abrir as portas no sábado, teria justificado sua atitude dizendo que o menino que Senhorinha vira na sala andava fugido dos pais e José Ramos o tinha ido levar de volta para sua família, por isso fora necessário fechar as portas para que o garoto não fugisse novamente (CRA, 1993, p. 19).

Para a polícia Catarina Palse dará outra versão; dirá que isso não tem nada a ver com os crimes cometidos por Ramos, e que fechou a porta devido à fumaça do mocotó que Senhorinha preparava naquela ocasião (id., ibid., p. 20).

Levando em consideração os indícios que apontam para o envolvimento de Catarina Palse nos crimes, é de causar estranheza que sua pena tenha sido atenuada, pois se sabe que em 12 de agosto de 1864 o casal é condenado pelas mortes de Januário e do garoto, José Inácio.
Ela é condenada ao grau médio, ou seja, apenas treze anos e quatro meses de prisão, enquanto José Ramos é condenado à morte na mesma sessão, sentença que mais tarde será comutada para prisão perpétua com trabalho.

Mais estranho ainda, é o fato de Catarina Palse nem sequer ser indiciada pela morte de Carl Claussner, fato que será também questionado por José Ramos, mais tarde, quando for julgado pelo assassinato do açougueiro.

Já a respeito do cadáver desconhecido em estado avançado de decomposição,
Catarina Palse afirma desconhecer, pois ela e José Ramos estavam morando na casa apenas havia sete meses.

No decorrer do dia da exumação na casa do casal, surge a hipótese de que os restos cadavéricos pertenceriam a Carl Claussner, estabelecido com um açougue, desaparecido em princípios do mês de setembro de 1863.

Em 27 de abril de 1864, o resultado do exame desses restos mortais aponta que a causa da morte não teria sido natural e sim decorrente de lesões ósseas no crânio, fraturas aparentemente produzidas por instrumento cortante e contundente como um machado (CRA, 1993, p. 46), talvez o mesmo que José Ramos tenha utilizado para matar Januário, o caixeiro e as demais vítimas em 1863.

Ainda segundo o exame pericial, os restos humanos pertenciam a um só indivíduo, do gênero masculino e maior de trinta anos.
De acordo com os peritos, os ossos examinados tinham mais de seis meses e menos de um ano de sepultamento, coincidindo com o mês de desaparecimento de Carl Claussner, setembro de 1863.

Ao analisar o crânio, pelos caracteres dos cabelos, que eram castanhos, finos, corredios e longos, julgavam que o indivíduo seria da raça caucasiana, características que conferem com as do açougueiro.
Mas realmente decisivo para a identificação de Carl Claussner foi saber que:
[...] os ossos próprios do nariz são grandes e apresentam uma depressão para o lado esquerdo [...] nota-se, sobre as fossas temporais, e apófises mastóides na sorte de membrana que facilmente se despedaça, restos prováveis da pele e do plano muscular que reveste esta região: colado a esta membrana nota-se um brinco de ouro de forma circular (CRA, 1993, p. 46-48).

As testemunhas chamadas para prestar depoimento confirmam que Carl Claussner possuía esses traços especiais.

A primeira testemunha e amigo da vítima, Carl Schimdt,  confirma o defeito no nariz no lado esquerdo, devido à cirurgia que Carl Claussner teria feito para retirada de um postema.
Inclusive no passaporte da vítima constam tais características: além de uma cicatriz no olho esquerdo até a boca, possuía o nariz um pouco torto (CRA, 1993, p. 34).

Carl Schimdt ratifica ainda que o açougueiro usava  um brinco de ouro na orelha.
Essas evidências levam a polícia a concluir que o corpo encontrado no pátio de José Ramos era de Carl Claussner.
                                              
Nota:
Carl Schimdt conhece Carl Claussner por terem sido companheiros no mesmo açougue, durante oito meses, no ano de 1862, e a partir daí teriam se tornado amigos (CRA, 1993, p. 51).

O desaparecimento de Carl Claussner não causou suspeita, segundo declararam as testemunhas, por dizer ele, muitas vezes, que pretendia retirar-se para Montevidéu.

Frederico João, “segunda testemunha” chamada para depor, diz ao chefe de polícia que Claussner havia expressado que desejava ir para Montevidéu ou Buenos Aires, mas antes disso precisava juntar dinheiro.

Dias depois, ao comprar carne no açougue, para sua surpresa, lá encontrou José Ramos e Rathmann; - ao perguntar por Carl Claussner
José Ramos teria respondido que o açougueiro havia ido para a Colônia de Petrópolis e depois desse dia nunca mais tivera notícias suas.

Entretanto, a informação fornecida por José Ramos demonstra-se sem fundamento, pois foram apreendidos em sua casa diversos objetos pertencentes a Claussner e de seu uso habitual, dos quais não se separaria mesmo empreendendo longa viagem.
Ao serem apresentados os objetos encontrados na casa da Rua do Arvoredo a Schimdt, a testemunha reconhece como sendo de Claussner os dois baús verdes, e afirma ainda que a vítima no baú maior guardava roupas e no outro papéis e coisas miúdas.
Outros objetos também são reconhecidos como pertencentes ao açougueiro, entre eles: 
Um paletó de pano, três coletes de lã verde, uns aventais de algodão azul e um travesseiro, colarinhos e peitos de camisa, uma tampa de caixa de cartão e um mapa e a caixa de metal para relógio, e sendo quebrado o selo e mostrado o relógio contido na mesma caixa, reconheceu também como pertencentes a Claussner o relógio e o cordão de cabelo [...] (CRA, 1993, p. 52).

Ao ser dado o direito ao réu de contestar, José Ramos nega serem de Carl Claussner os objetos reconhecidos pelas testemunhas. Tais pertences teriam sido comprados de colonos alemães havia mais de um ano e meio.
Ramos ainda declara ter comprado o açougue de Claussner e que teria levado para casa somente os objetos que encontrara abandonados no açougue, dentre eles, os dois baús reconhecidos pelas pessoas interrogadas como sendo do açougueiro.
Schimdt, ao observar a assinatura do recibo que supostamente Claussner teria assinado passando seu açougue a José Ramos, diz à polícia que não lhe parece a assinatura do amigo, pois ele escrevia sempre com caracteres alemães.

Em 09 de maio de 1864, o recibo será objeto de auto de exame e corpo de delito entregue à Justiça, pelos peritos Georg Pfeiffer e Rodolfo Appenzeller.
Tal exame concluirá que o comprovante “parece ser falsificado pela mão de José Ramos”, pois constataram que o nome de Claussner no recibo se distingue por erros, pois consta “Carl Klausen”, enquanto o verdadeiro nome, segundo certidão de batismo, era “Carl Gottlieb Claussner”.
Ao mesmo tempo, a letra e a assinatura no recibo “têm toda a semelhança com as do punho de José Ramos” (CRA, 1993, p. 63).

O fato de o comprovante ter sido falsificado constitui-se em dado fundamental na formação de culpa de José Ramos pela morte de Carl Claussner
Ao ser questionado a respeito da escrita do recibo o réu nega a acusação de ter falsificado tal documento, assegurando que foi o próprio Claussner que lhe entregou o recibo quando lhe vendeu o estabelecimento (id, ibid., p. 66).

Nesse ínterim, Catarina Palse era pressionada pelo chefe  de polícia para que confessasse como se deu a morte de Carl Claussner e os motivos que levaram o amante a cometer tal ato.

Mas a pressão será pobre em resultados, pois Catarina Palse alegará que sequer conhecera a vítima e ratificará apenas o que o chefe de polícia já sabia: Ramos vendeu carne no estabelecimento de Claussner por algum tempo.
Outro fator relevante que consta no processo criminal é que, ao tempo do crime
cometido contra Carl Claussner, o réu Carl Rathmann era companheiro de José Ramos, residiam juntos, juntos estiveram no açougue e juntos removeram os objetos pessoais do estabelecimento. Rathmann foi visto no dia subsequente ao desaparecimento do açougueiro em companhia de José Ramos, pela sétima testemunha a depor, Carlos Lorenz, que afirmou ter presenciado Carl Rathmann servindo como ajudante de José Ramos no açougue da Rua da Ponte, depois que este supostamente o havia comprado de Claussner (CRA, 1993, p. 60). 

Dessa forma, os indícios apontam para que o delito de José Ramos cometido contra o açougueiro também alcance, pelo menos na qualidade de cúmplice, o acusado Carl
Rathmann, nas circunstâncias de morar este ao tempo do crime com José Ramos, conforme ele mesmo confessou, e por ter sido visto junto com Ramos no dia subseqüente ao desaparecimento de Carl Claussner.
Sobre o motivo de estar em companhia de José Ramos no açougue, Rathmann responde que:
Tendo-lhe José Ramos dito que Claussner se havia retirado para Montevidéu, pediu a ele respondente que fosse para o açougue a fim de vender carne em suas ausências, o que ele respondente fez durante dois dias, isto no ano passado [...], findos os dois dias o alemão Fetter não quis mais fornecer carne ao José Ramos, este resolveu fechar o açougue e mudar os trastes para sua casa (CRA, 1993, p. 64).

O réu nega a suspeita de ser sócio ou caixeiro de José Ramos, apenas reafirmando que ajudou no açougue por alguns dias, quando este lhe disse que o tinha comprado de Carl Claussner.
No entanto, as suspeitas sobre o envolvimento de Carl Rathmann no crime são agravadas pelo depoimento de Joaquim Antonio Machado da Roza, “sexta testemunha” chamada para ser ouvida, que revela:
Havia oito meses ou dez meses o réu Carl Rathmann lhe entregou para amolar um facão de dois cabos e uma machadinha de açougue, ele testemunha amolou e entregou ao mesmo réu; no dia seguinte o réu José Ramos veio ter com ele testemunha e perguntou-lhe se tinha feito aquele serviço e por quanto, o que ele testemunha explicou-lhe (CRA, 1993, p. 58).

Em 15 de julho de 1864, depois de tomados todos os depoimentos das testemunhas e frente às inúmeras evidências que apontam para a culpabilidade de José Ramos, ele é acusado de assassinato.
Recaem-lhe as seguintes acusações:

O réu José Ramos:
- Teria em princípio de setembro de 1863, na Rua da Ponte, matado Carl Claussner em sua residência.
- Depois de ter cometido a morte, teria tirado para si por meio de violência todos os efeitos que encontrara na casa do açougueiro, parte dos quais foram apreendidos na residência do réu.
- Além disso, foi acusado de ter cometido o crime com premeditação, havendo decorrido mais de vinte e quatro horas entre o desígnio e a ação. Inclusive teria realizado o crime com abuso de confiança nele posta, e com isso empreendido o delito com surpresa.
- E depois disso, teria o réu fabricado e assinado o recibo, cuja falsidade foi reconhecida pelo exame pericial, para atribuí-lo a Carl Claussner e desse modo justificar a aquisição que fazia do açougue e mais objetos da vítima.

O réu Carl Rathmann:
- É acusado de ter concorrido diretamente para que José Ramos perpetrasse o crime.

Frente a essas acusações, foi pedida a condenação de José Ramos, segundo o código criminal, ao grau máximo, bem como a condenação de Carl Rathmann no grau médio e para que assim fossem julgados (CRA, 1993, p. 72).

Vale chamar a atenção para o fato de que Carl Rathmann é acusado somente para cumprir protocolos, pois será absolvido por unanimidade dos delitos dos quais estava sendo pronunciado.
As testemunhas são notificadas para depor na sessão do júri iniciada em 08 de agosto de 1864.

Foram sorteados quarenta e oito jurados para participar da sessão.
Averiguou-se estarem presentes trinta e seis pessoas à sessão (CRA, 1993, p. 79). Destas, doze foram sorteadas na hora, após a impugnação de dois jurados pela promotoria e de outros seis pelos réus. 
                                              
Quanto à qualificação dos réus antes do julgamento:

Consta que José Ramos disse ser filho de Manoel Ramos e de Maria da Conceição, ter 26 anos, ser solteiro, não ter profissão, ser brasileiro, ter nascido em Santa Catarina e saber ler e escrever.

Carlos Rathmann informou ser filho de Mellior Rathmann e Catharina Rathmann, ter 61 anos, ser casado, seleiro de profissão e de nacionalidade alemã. Sabendo ler e escrever, nasceu no Ducado de Essem, em Kassel (CRA, 1993 p. 49-50).

Defensores nomeados:

José Ramos e Carl Rathmann declaram ser pobres e não ter quem os defendesse; assim, o Juiz nomeia como defensor do primeiro a Francisco Xavier da Cunha, e do segundo, a João Pereira Maciel, que aceitaram a nomeação (id., ibid., p. 79).

Foram notificados:

Carlos Lorenz, Carlos Schmidt, João Ermano Adolfo Tehse, João Hugo Tehse, Antonio Fernandes da Silva, Frederico João, Antonio Lehmann, Joaquim, menor, filho de João Antonio Machado da Rosa (CRA, 1993, p. 77).

Sorteio do Júri:

Foi mandado ao menor Delfino José Nunes que tirasse as cédulas cada uma por sua vez, e as lesse ao mesmo tempo em que eram extraídas.

Saíram sorteados para compor o júri os seguintes nomes:
Candido de Albuquerque, Fernandes Gama, Manuel Ignácio Rodrigues, Luiz José da Fontoura Palmeiro, Francisco Ferreira Jardim Brasão, Domingos de Almeida e Oliveira, Luís Beltrão de Miranda e Castro, José Maria de Andrade, João Dias de Castro, João José Ferreira, Francisco de Paula Soares, Antonio de Lima Pinto e José Gonçalves Mendes Ferreira (CRA, 1993, p. 80).

No auto do interrogatório de José Ramos no dia do julgamento, constam, entre outros questionamentos, se o réu sabia o motivo pelo qual estava sendo acusado e se precisava de algum esclarecimento a esse respeito; José Ramos responde ardilosamente:
[...] que ele sabe que é pelo fato de acharem no porão de sua casa os fragmentos de um esqueleto que se supõe ser de Claussner, mas que ele respondente é vitima de indícios sem que haja uma prova convincente a respeito de sua criminalidade, sendo que muito se admira que a ré Catarina Palse não tenha sido induzida no presente processo, sendo ela que governava a casa em que com ele morava e, admitindo ali diversas pessoas, é quem podia saber como se passaram esses fatos e dar uma explicação razoável, e que quanto a este crime e ao outro por que já foi condenado ele respondente é inocente, assim como também é pelo presente crime aquele que hoje comparece como seu cúmplice (CRA, 1993, p. 82).

Em vários momentos do interrogatório observamos nas respostas de José Ramos a tentativa de retirar de si a culpa pelos crimes e também de responsabilizar Catarina Palse.
Afirma que quando chegou em casa estava sua mulher com Henrique, “o corcunda” que lá morava havia cerca de três semanas, sugerindo que quem poderia saber a esse respeito seriam os dois.
Ao ser questionado sobre as manchas de sangue na casa e no lençol de uma das camas, José Ramos sugere também que Catarina Palse seria a pessoa mais indicada a responder, pois era ela que cuidava da limpeza da casa e da roupa suja.

O réu Henrique Rithmann, que também fora ouvido pela polícia, ardiloso, consegue despistar qualquer suspeita.
Ao ser questionado sobre Carl Claussner, nega tê-lo sequer conhecido; afirma desconhecer as circunstâncias da prisão de José Ramos, apenas sabia que haviam encontrado na residência dentro de um poço, carne, mas que seria de boi, e que essa informação obtivera de vizinhos de Ramos (CRA,  1993, p. 18).

Henrique confirma que residiu na casa da Rua do Arvoredo por alguns dias, a convite de José Ramos, mas ressalva que no período do assassinato de Januário e de seu caixeiro José Inácio não estava mais morando na casa de Ramos, e que no dia dos tais crimes fora pela parte da manhã até a residência do casal deixar uma japona para Catarina Palse consertar e no decorrer do dia não havia saído do hotel (CRA, 1993, p. 18).

Depois de tomar seu depoimento, o chefe de polícia entende que Henrique não estava envolvido no assassinato do açougueiro e manda-o em paz, livre de qualquer suspeita.

José Ramos se mostrará extremamente dissimulado e calculista ao responder aos questionamentos do chefe de polícia, mas muitas vezes sustentará declarações inverossímeis e contraditórias, entre elas o fato de não saber como o corpo de Carl Claussner foi parar no porão de sua casa.
Isso porque a alegação de ignorância oferecida por José Ramos sobre a procedência
                                                                                                                                                  
O réu Carlos Rathmann, ao ser questionado se teria algo a declarar ou se possuía provas que justificassem ou motivassem sua inocência, responde:
Que não teve parte alguma nos fatos criminosos que se atribuem a José Ramos sobre o desaparecimento de Carl Claussner, e que por morar em casa daquele por ocasião do desaparecimento deste (a quem supunha ter partido para Montevidéu em uma viagem por lhe dizer Ramos) foi por dois dias partir carne no açougue em que José Ramos tinha ficado, a seu pedido, e como depois desses dois dias o alemão Fetter não quisesse mais fiar carne a Ramos este resolveu fechar o açougue e levar os utensílios para casa, cujo transporte ele auxiliou, mais que o fez sempre na melhor boa fé como em serviço que prestaria sempre a qualquer conhecido (CRA,1993, p. 83).

Em 13 de agosto de 1864, de conformidade com a decisão do júri, o réu José Ramos, é condenado à pena de quatorze anos e um mês de prisão com trabalho e a multa de doze e meio por cento do dano causado com a falsidade, pagos pelo mesmo à custa em proporção devida. 

No entanto, não se pode deixar de estranhar a falta de unanimidade dos jurados quanto à culpa de José Ramos na morte de Carl Claussner (10/2).

Como regra, não há flagrante nesses crimes e isso permite a negação da autoria, negação que suscitará dúvidas nos julgadores quanto ao envolvimento do réu na morte do açougueiro, apesar de todas as provas arroladas e que incriminavam José Ramos.

Observamos também certa incoerência na votação de alguns quesitos, como por exemplo, se José Ramos teria tirado para si, por meio de violência, todos os efeitos que achou na residência da vítima.

Ora, há meio mais violento do que matar e esquartejar Carl Claussner, levar seu corpo em pedaços dentro do baú da própria vítima e todos os objetos de valor que encontrou na casa e ainda falsificar o recibo com a finalidade de justificar a aquisição que fazia do açougue?
Para grande surpresa, o júri, com quase unanimidade de votos (11/1), não acreditou que José Ramos tenha tirado para si por meio de violência os pertences do açougueiro.

Mais surpreendente ainda é o fato de Carlos Rathmann ser absolvido por unanimidade pelo júri.

Embora vários indícios apontassem para o seu envolvimento nos crimes, entre eles o fato de morar na casa de José Ramos no período do crime, estar com ele no açougue imediatamente após o desaparecimento de Carl Claussner e, segundo testemunhas, ter solicitado a amolação de um facão de dois cabos e uma machadinha do açougue, a mando de José Ramos, o júri entendeu por sua inocência.  

É importante atentar também para o fato de que, das oito testemunhas inquiridas no
Sumário, pelo menos seis eram imigrantes alemães e protestantes (Carlos Schmidt, Frederico João, João Hugo Tehse, João Herman Adolfo Tehse, Carlos Lorenz e Antonio Lehmann).

Cabe destacar ainda a presença de certa imprecisão  na formulação das perguntas às testemunhas e até mesmo certo grau de indução de inocência na própria forma pela quais elas eram formuladas ou dirigidas às pessoas interrogadas. Nesse sentido, podemos citar uma das Carl Rathmann (CRA, 1993, p. 56).

Talvez esses fatores tenham favorecido a absolvição do alemão Carl Rathmann, ou seja, o fato de a maioria das pessoas ouvidas serem alemães assim como o réu e a forma como foi conduzido o inquérito no que dizia respeito ao seu envolvimento nos crimes.

Lenda

- Citação extraída de Bertrand Bergeron:
No reino da lenda (p. 43).
A íntegra do texto, em tradução de Sylvie Dion e Danieli de Quadros, está em preparação para ser publicada nos Cadernos de Tradução do PPG-Letras da FURG, n. 6. Série Traduções.
Foram selecionados para tradução os primeiros quatro capítulos de:
BERGERON, Bertrand.
Au royaume de la légende. Chicoutimi: JCL, 1988,
Dialogue avec l’invisible, Le phénomène naturel de la croyance, Le surnaturel réel  e La légende,
Description et définition, nos quais o autor se concentra na elaboração de uma definição da lenda, analisando-a como fenômeno social e literário.

- Tratando-se de Lenda, o episódio também pode ser lido dessa forma, pois os crimes cometidos por José Ramos, na então província de São Pedro, entre 1863 e 1864, possuem o tempo acontecido bem datado – em 18 de abril de 1864 foram descobertos na casa do acusado corpos em estado de avançado putrefação – o que oferece localização cronológica suficiente para resgatar seu contexto sócio-histórico, aumentando a impressão de que a narrativa adere ao real.
Conforme B. Bergeron, quando essas quatro leis externas são respeitadas, podemos ter certeza de que possuímos uma narrativa ainda próxima do curso de sua formação, o que acresce consideravelmente sua credibilidade.
Ao direcionarmos nossas atenções para os aspectos internos, colocando a ênfase na própria narrativa dos crimes e nos procedimentos que ela reúne para gerar a crença necessária à transmissão, podemos sublinhar: que torna crível  e plausível a construção da lenda dos crimes da Rua do Arvoredo é o fato de serem conhecimento público alguns pormenores a respeito daqueles crimes.
Podemos citar como exemplo o fato de constar no processo criminal o depoimento da testemunha Antonio Fernandes da Silva, que afirma ter presenciado em uma manhã de setembro de 1863 sair do açougue a caixa maior pertencente a Carl Claussner, carregada por dois negros (CRA, 1993, p. 57). 
Já outras narrativas darão contornos mais dramáticos a esse fato, entre elas a versão de Maurício Machado em “O açougue humano da Rua do Arvoredo”

A estes e outros desaparecimentos misteriosos, associava-se o fato de ter sido visto Ramos, por várias vezes, quando carregava, auxiliado por um alemão corcunda, duas grandes e fortes caixas de madeira, de sua casa para o açougue da Rua da Ponte.
Certa ocasião em que Ramos e o Corcunda, à noite, faziam aquele carregamento, uma pessoa notou que as caixas deixavam escorrer um fio de sangue (p. 8). 

Outros momentos que podem estar associados à construção da lenda do “fabrico de lingüiça de carne humana” é o fato de serem de conhecimento público os procedimentos de José Ramos ao matar as vítimas: primeiro desferia um golpe de machado, em seguida as degolava e depois as esquartejava – procedimentos que se assemelhariam ao abate de animais.

O fato de ser capaz de atos de tamanha crueldade e insanidade, e após os últimos assassinatos, ir trabalhar no açougue da Rua da Ponte, fornece subsídios para a criação da lenda. Para maior reforço a essa hipótese, toma-se, por exemplo, a descrição de Carl Claussner feita por Décio Freitas:
“Açougueiros sempre provocam mal-estar e medo: empunhando afiadíssimos instrumentos cortantes, esquartejam e retalham carne: seus aventais vivem manchados de sangue”

Em 1822, quando a província de São Pedro torna-se cidade, paralelamente ao aumento populacional aumenta também a insegurança e o medo da violência urbana.
No período do assombroso episódio, a cidade com mais de 20 mil habitantes já é considerada perigosa à noite (SPALDING, 1967).

Os crimes da Rua do Arvoredo, ocorridos entre 1863 e 1864, vêm acentuar a insegurança e o medo entre a população.

Lenda ou não, o caso da “fabricação de lingüiça humana” ganhou força e tem vivido conservado na memória da população por gerações.  

Questão Étnica

Associado a esta classificação pode estar outro ponto propício à matéria-prima com que se criou a lenda do fabrico de lingüiça de carne humana.
O fato de Catarina Palse e o próprio assassino José Ramos se dizerem descendentes de alemães e, com o desenrolar dos fatos, surgir a suspeita de envolvimento de outros  alemães nos crimes (Carlos Rathmann e Henrique Rithmann), pode ter contribuído para “alimentar” o imaginário social em torno do episódio.

Retomam-se as múltiplas questões étnicas se a misturarem nos crimes da Rua do
Arvoredo, que, enfocando a presença alemã na cidade, encontra a sua expressão maior de hostilidade.
Os portugueses da elite olhavam com desconfiança para os colonos alemães, que, quarenta anos antes, tinham se estabelecido no vale do rio dos Sinos e depois se espalhado para outras regiões, inclusive para a distante Torres, no litoral norte.
Os lusos desprezavam os imigrantes que se punham eles próprios a lavrar a terra, a levantar as suas casas, e por isso eram chamados pelos fidalgos portugueses de “negros de cabelos loiros”. (ÚLTIMA HORA, 07 mar. 1964, p. 10-11).

Em 1861, esse ódio se intensificou com a Questão Christie no governo Imperial.
Por esse preconceito racial, os imigrantes alemães se acoitavam em suas próprias colônias e mantinham-se distantes da língua portuguesa e da sociedade porto-alegrense.

A aversão contra o estrangeiro é crescente no Rio Grande do Sul, pois a figura do outro sempre causa mal-estar e medo; tais sentimentos se justificam, pois tudo o que nos é diferente causa estranheza e temor.

S. Dion chama a atenção para a seguinte constatação:
“A figura onipresente do estrangeiro, do marginal, do desviante, é uma ameaça constante” (2008, p. 12), por isso deve ser contida.

Quando desaparece o português Januário da Silva, proprietário do estabelecimento da Rua da Ponte (atual Rua Riachuelo), as suspeitas recaem logo sobre os escravos e em seguida sobre os alemães. I
sso porque “as acusações racistas e xenófobas, que repousam sobre o medo da diferença, portam sempre sobre quatro domínios, a comida, a violência, a sexualidade e o território, que são aqueles que uma sociedade regulamenta mais” (RENARD, 2002, apud DION, 2008, p. 10).

Para a população de Porto Alegre, José Ramos é um assassino alemão, estrangeiro, infiltrado entre os habitantes locais, que veio de longe para desestabilizar e perturbar a ordem e o sossego da cidade através de práticas amorais, tais como canibalismo, violência e perversão sexual.

No desenrolar do tempo, José Ramos perde a aparência frágil e debilitada descrita pelos jornais da época e, a partir das diversas re-apropriações dos crimes, assume expressões satânicas e passa a ser descrito como um monstro, uma besta-fera. 

O Fim de Catharina

De pais a filhos, a história tem sido contada e enriquecida com novos detalhes imaginários, como de Ary Veiga Sanhudo:
Pouco mais das oito horas, numa fria manhã do inverno de 1888, começou a se aglomerar em torno duma velha mendiga e maltrapilha, [...] um grupo de gente curiosa [...]. A velha andrajosa estava estendida na calçada, tendo parte do busto esquelético e a cabeça horrenda, apoiada na parede do prédio, que, nesta conjuntura, servia-lhe de travesseiro [...] Em torno da boca asquerosa e semi-aberta, sangrentas manchas escuras e putrefatas, deixavam aparecer dois ou três dentes cariados enegrecidos que bem atestavam os últimos estágios dum estado canceroso da desgraçada mulher [...] Eis então que chega um velho homem, vasta barba branca aparada, envergando apurado traje negro, arredou a multidão e empurrando o chapéu miserável  da mendiga com a bengala, disse: Finalmente a Catarina morreu! [...] Esta é a diabólica Catarina, do Ramis, a tal que, de parceria com o marido, atraia os pseudos [sic] amantes para deles fazerem lingüiça (1961, p. 146). 
O excerto acima, além de servir para exemplificar o acolhimento da história do “fabrico de lingüiça de carne humana”, assume também feição nitidamente ficcional ao relatar a triste morte de Catarina Palse.

Nota:
Vale ressaltar que há disparidade quanto à data do falecimento de Catarina Palse.
A crônica de Sanhudo localiza sua morte em 1888.
Decio Freitas (1996, p. 133), por sua vez, afirma que ela morreu em 1891.
Fez Aquiles de Porto Alegre ao encontrar Catarina Palse no ano de 1884:
“estava cancerosa e apresentava aspecto repugnante” (PORTO ALEGRE, 1940, p. 185).

Versões

Em Cães da Província, a descrição da chegada da polícia na casa do acusado ocorre quase fielmente, com poucos desvios, à versão histórica considerada oficial.

Dário Calado reúne comitiva nunca vista em Porto Alegre:
Em duas carruagens botou escrivães, oficiais de justiça, policiais armados e ajudantes [...], e dirige-se à rua do Arvoredo. Manda vir a pé dois condenados às galés para os serviços mais ordinários, como derrubar paredes ou – e nisso não acredita – desenterrar cadáveres. Mesmo porque as informações que lhe dá o delegado não o convencem, de que ontem esteve na casa de José Ramos e lá encontrou vestígios de ossos no porão. Isso são ossos de rês, diz o doutor Calado (ASSIS BRASIL, 1999, p. 66).
Semelhanças também podem ser evidenciadas no que concerne à busca e à exumação, em 18 de abril de 1864, na casa do acusado.
Nessa ocasião são encontradas diversas provas que comprometem José Ramos e Catarina Palse:
– Um crânio. Anote aí: um crânio – dita o doutor Calado ao escrivão, mal acreditando que todas suas suspeitas se confirmaram, desenterraram tíbias, úmeros, costelas, espinhaços, que saem da terra do porão com exclamações de assombro do povo [...] chegando lá fora, vê uma grande aglomeração junto ao poço e, antes que possa tomar pé no que acontece, mostram-lhe postas ensangüentadas de gente, são pés, braços, mãos e outros membros deitados sobre uma lona (ASSIS BRASIL, 1999 p. 68-69).

Tanto no plano da literatura quanto no plano da história, as narrativas dão conta de que durante a escavação no pátio da casa da rua do Arvoredo foram descobertos os cadáveres de Januário, do caixeiro e um corpo em avançado estado de putrefação: 
O delegado não parece atingido pela tétrica exposição; com minúcia vai descrevendo:
– Aquilo que o senhor vê é um tórax, ali as pernas e a cabeça, já conseguimos formar um corpo inteiro, o que acha disto?
– E reconheceram o infeliz?
– É o caixeiro de Januário. [...] Lentamente, puxadas por cordas em cujas pontas haviam atado ganchos de ferro, sobem mais partes de um grande corpo de homem, violáceas e fétidas. É o Januário, alguém diz.
– E o cachorro?
– pergunta o doutor Calado, arrependendo-se logo. – Já foi desenterrado também – informa-lhe o delegado (ASSIS BRASIL, 1999, p. 69).

Durante a busca no interior da residência, a narrativa de Assis Brasil se aproxima da narrativa histórica.
O chefe de polícia, ao olhar para as tábuas do assoalho, procurando concentrar-se na sua missão, sente-se desconcertado, pois revelam-se mais provas que incriminam o casal:
Há uma grande mancha vermelha no chão e que não se  desfizera mesmo depois da evidência de muitas lavadas [...] vai constatando, há várias manchas de sangue no quarto, no corredor, mas seu olho experiente indica umas manchas mais novas, outras mais antigas.
Vendo umas botas desparelhadas a um canto, pergunta a quem pertence (ASSIS BRASIL, 1999 p. 67-68).

O Canibalismo Porto Alegrense
O Anti-germanismo

No romance, “Canibais” de Davi Coimbra, é expresso o desejo de abafar o caso da lingüiça de carne humana.
Na história, frente à situação de não poder prever qual seria a reação dos moradores da cidade quando soubessem que de fato teriam consumido carne humana feita pelas mãos de açougueiro alemão, o chefe de polícia em exercício tenta abafar o caso, através da impronúncia dos acusados.

Em Canibais esse desejo é expresso:
Dário Callado o chefe de polícia compreendeu de imediato que a história da lingüiça feita com carne de gente era incendiária. Aquilo transformava quase que a população inteira em antropófaga.
A lingüiça era uma das preferências gastronômicas dos porto-alegrenses.
                                              
Vale ressaltar que hoje não há certeza quanto ao local exato da antiga casa da Rua do Arvoredo.
É importante sublinhar que, segundo Décio Freitas (1996), na ocasião do suposto novo depoimento de Catarina Palse, em 1868, estava em exercício o chefe de polícia Gervásio Campello, substituto de Dário Calado
Precisava abafar pelo menos a parte que se referia à lingüiça (COIMBRA, 2008, p. 256).

As tentativas de esconder os crimes não impediram que a divulgação dos fatos chegasse ao público.
O chefe de polícia sabia de antemão que seria impossível guardar segredo, pois havia muitas pessoas envolvidas:
“o sapateiro, o anspeçada, as famílias dos desaparecidos”.
Além disso:
“aquela velhota, a tal  Honestina, ela não saía de perto” (COIMBRA, 2008, p. 255).

No romance, é por meio da  sempre atenta Dona Honestina, fofoqueira da cidade, “a notícia se espalha com a rapidez da locomotiva Baronesa, que há dez anos ligava a Baía de Guanabara a Petrópolis [...]. Em questão de horas, a cidade toda comentava os assassinatos e o que fora feito dos corpos” (id., ibid., p. 256).

A notícia é responsável por acentuar-se o anti-germanismo no Rio Grande do Sul do século XIX.
O fato de Catarina Palse ser alemã e o  açougue, antes de Ramos, ter sido propriedade de um alemão desperta a animosidade racial latente na cidade, quando os crimes vêm à tona:
O Palácio do Governo foi cercado por populares que  exigiam providências, sem, no entanto, especificar o que as autoridades poderiam fazer. Era revolta em estado puro.
As pessoas talvez quisessem que a polícia desmentisse aquela história escatológica. E queriam, sobretudo, encontrar um culpado no qual pudessem descarregar sua indignação. Gritavam que os alemães eram assassinos, que eram canibais.
O chefe de polícia precisou usar toda a força policial para conter a manifestação (COIMBRA, 2008, p. 257).

O anti-germanismo pode ser igualmente presenciado no padeiro Antunes. Volta e meia, ele repetia sua tese acerca dos efeitos da imigração germânica no país. Em uma de suas conversas habituais, pela manhã, com o amigo Walter, Antunes comenta:
– Sei que você mesmo é alemão, que sua mãe era alemã, que sua mulher era alemã, Walter.
Mas vocês são diferentes. Sua mulher com certeza era diferente. A maioria das alemãs é pérfida. É perigosa! Desconfio delas.

Desconfie delas também, Walter. Essas loiras vão transformar a província numa terra de cornos irremediáveis! [...] Essa Catarina é dessa laia. Pode ser linda, pode ser fascinante, mas é perigosa. Ela não é como as alemãs da sua família. Ela é uma dessas alemãs do Mal, que estão infestando a província (COIMBRA, 2008, p. 49).

O cônsul da Prússia convoca uma reunião consular a fim de discutir a situação.
Receoso de que tumultos populares ponham em risco a integridade física e as propriedades dos imigrantes, ele forma uma comissão com os demais cônsules e vai ao Presidente da Província pedir garantia de segurança para os estrangeiros. A comissão fica especialmente preocupada com os rumores de que imigrantes alemães “comem carne humana, como os índios” (FREITAS, 1996, p. 71). 

Os crimes de José Ramos provocam, assim, um incidente diplomático, cuja repercussão alcança até o jornal uruguaio  El Oriental, que noticia:
“As autoridades da província de São Pedro do Rio Grande do Sul descobriram que os alemães, motivados pela avareza, matam pessoas para fazer e vender linguiça de sua carne. Sirva de advertência para que o governo oriental traga sob vigilância esses estrangeiros” (FREITAS, 1996, p. 128).

O anti-germanismo pode ser igualmente observado através da notícia do jornal francês
Le Temps, sob o título “O maior crime da terra”
O mundo civilizado estremecerá de horror ao saber que no Império do Brasil se pratica o canibalismo. Na cidade de Porto Alegre [...], um grupo alemão assassinou seis pessoas e com sua carne fabricou lingüiça, vendendo-a ao público, que a comeu despreocupadamente. Tem-se aí mais uma  prova da barbárie germânica que hoje inquieta a França e a Europa (FREITAS, 1996, p. 128).
A negação dos crimes da rua do Arvoredo em benefício da “memória da cidade” estaria diretamente associada à suposta fabricação de lingüiça de carne humana.

No romance, a questão é expressa através do sentimento que se apoderou da população da cidade:
Aquela história rapidamente se transformou em tabu para os porto-alegrenses.

Afora outros cônsules germânicos, comparecem os da Argentina, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Rússia, Suécia, Suíça e Uruguai, além de alguns comerciantes germânicos (FREITAS, 1996, p. 128).

O anti-germanismo do jornal francês se explica num  momento em que a guerra franco-prussiana já era iminente.

Segundo Décio Freitas (1996), a negação dessa característica específica dos crimes estaria vinculada ao caráter traumático que seu conhecimento poderia acarretar junto à população da cidade.
O autor associa essa negação ao desaparecimento dos processos referentes aos crimes da Rua do Arvoredo, em especial o que versou sobre o caso da lingüiça com carne humana, à tentativa e o desejo generalizado da cidade de esconder os pormenores dos crimes praticados por José Ramos, assim como certo empenho em negar o estigma do canibalismo que cercou a capital dos pampas.
Além dos desaparecimentos dos processos referentes aos crimes, que sustentam a posição “de que houve um apagamento deliberado dos acontecimentos da rua do Arvoredo da memória da cidade”, outros fatos colaboram para idéia de negação, entre eles, o golpe judicial para subtrair ao julgamento pelo júri o caso da lingüiça de carne humana e ensejar a absolvição liminar dos acusados pelo juiz singular.
O silêncio dos jornais locais da época e dos cronistas da cidade, salvo Aquiles Porto Alegre, que registra a fabricação da lingüiça de carne humana, e, em último lugar, mas não menos expressivo, as pressões sofridas pelo Diário de Notícias, em 1948, para que não mencionasse a questão da lingüiça de carne humana, representam a negação do episódio.

Assim, de volta aos seus lares, ressentidos, frustrados, os moradores desencadearam um processo coletivo e silencioso de assimilação do caso.
Como se toda a cidade houvesse entrado em um acordo mudo, ninguém mais falava no caso da Rua do Arvoredo.
E dessa maneira, a história dos escabrosos crimes se encaminha para o final, na narrativa do romance “Canibais”.

A Beleza de Catharina

Beleza é também um dos fatores determinantes utilizados por Catarina para atrair e desconcertar as vítimas. Aquiles Porto Alegre, em crônica publicada na década de 20, comenta:
A beleza da mulher é quase sempre fatal, porque, como os abismos, atrai,fascina os olhos cautos ou incautos que nela pousam. Além disso, a mulher bela esta sempre exposta a uma infinidade de perigos, de atentados, porque há certos homens que perdem a cabeça quando encontram uma beleza. Todavia, o homem é que é sempre a vítima, porque é ele que pratica todas as loucuras para a conquista da mulher que o enfeitiçou (1923, p. 142). 

Identificada pelo mesmo Aquiles Porto Alegre, cronista da cidade, como a peça-chave para a efetivação dos assassinatos daqueles destinados a virar linguiça, diferente dos relatos oficiais em que consta que ela possuía cabelos negros, feições vulgares e já fanadas para a idade que dizia ter, Catarina Palse é caracterizada como loira, olhos claros e bonita:
O cabelo loiro, esvoaçante, devia ser suave ao toque. Os lábios carnudos, mas ao mesmo tempo despretensiosos. Os olhos... azuis ou verdes? Verde azulados, decidiu Duarte. Uma mulher de boa altura, quase um metro e setenta, esguia, segura de si, pelo jeito que andava (COIMBRA, 2008, p. 9).

Catarina não poderia ser de outro jeito.
Isso porque os cabelos loiros, desde a Idade Média são associados à pureza, à beleza das princesas dos contos de fadas.
Algumas das heroínas da literatura brasileira, entre elas Cecília, de O Guarani, de José de Alencar, era moça meiga, suave, loira, linda, de doces olhos azuis.
As morenas, por sua vez, são identificadas com o pecado ou com a maldade.
Neste caso, cabe novamente a alusão ao romance de Alencar, em que Izabel é o oposto de Ceci, moça morena e de sorriso provocador, associada à sensualidade.
A Bronze, personagem de Canibais, tem os cabelos escuros e a pele morena, identificados com o pecado e com a sensualidade:
“[...] era a Bronze, a mais famosa puta da cidade. Diziam que era feiticeira também. Que encantava o homem que quisesse” (COIMBRA, 2008, p. 170). “A Bronze era diferente da loira. A Bronze era toda rigidez e sexo, puro sexo”. “Catarina era mais delicada, mais macia” (id., ibid., p. 230).

José Ramos jamais admitiu ter cometido qualquer dos crimes por que foi condenado.

Não se sabe ao certo quantos pobres diabos José Ramos matou. Nem os motivos que o levaram a isso.
Mas ele pode ser considerado o “primeiro serial killer brasileiro” de que se tem registro.